quarta-feira, 14 de maio de 2014

Passado, futuro, ficção, nada: considerações sobre o sonho.



Gustav Klimt - "A virgem" (1913)

Parece que sempre descrevemos o sonho como algo que se antepõe à realidade — algo que assemelha-se à realidade, fica à sua borda, talvez entre um pouquinho nela — mas não a defina, de todo. Ora, suponha-se que temos um homem, e este homem esteja perseguindo um objeto inanimado — um cachecol esvoaçando, por exemplo —, pelos cômodos de uma casa, que é onde está; todo este percurso leva-os, homem e objeto para o quintal na parte de trás da casa, onde há uma piscina, aparentemente sem fundo. O homem a contempla por um instante e mergulha atrás do cachecol, que sumiu na escuridão da piscina.

Suponhamos, por fim, que o homem acorda e eu encerro meu relato com a expressão batida de que "tudo não passava de um sonho".

O monge Chuang Tzu, segundo conta o koan, ao acordar dum sonho em que havia sonhado que era uma borboleta se pôs em reflexão se ele, de fato, seria uma borboleta que estaria naquele exato momento sonhando em que era um homem.

É exatamente sobre esta fina linha, quase translúcida, a qual Tzu evidencia de forma magistral, que parecem se localizar os sonhos: num momento presente que não é exatamente este momento aqui. Homem ou borboleta, dormindo ou mergulhando, o sonho é confusão, charada, enigma, mistério.


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O enigma se estende além. Assim também tomamos os sonhos como futuro.

Sonhos são nossos projetos, nossas ideias, aspirações, desejos. Podem ser partilhados, podem ser restritos. Podem indicar o caminho a seguir, podem abrir o problema, podem denunciá-lo. São também as nossas angústias, os medos, os temores, a sombra enorme daquilo que já estava no escuro e que não conseguimos olhar por muito tempo. São tidos como prenúncios de um futuro que nos eleva ou nos esmaga, parecem evocar boa-fé, loucura, desgraça, esperança, infortúnio.

Não é de se espantar que se constate que, dadas estas implicações, houve ao longo da história da humanidade muito empenho em interpretar e transmitir o que os sonhos parecem nos dizer. Os xamãs têm sonhos diferenciados dos sonhos tidos pelo resto da tribo, "grandes sonhos", que se debruçam sobre o coletivo. Daniel, o profeta, é tido (às vezes jocosamente, às vezes não) como um dos primeiros psicanalistas, posto que exerceu, dentre outras coisas, a função de interpretar os sonhos do rei. Não pôde evitar que caísse em desgraça, apenas comunicou-lhe a natureza do sonho.(1)

Outro fenômeno análogo que perpassa a história da humanidade, em conjunto com os sonhos, é a loucura. O chamado mundo da Lua frequentemente é pareado com o sonho(2). Assim como as produções psíquicas na esquizofrenia (delírios e alucinações) estão firmemente calcadas na realidade do sujeito(3), os sonhos, mesmo os mais aterradores, nos causam impressões e parecem falar diretamente sobre a nossa vida. Podemos, assim nos endereçar a eles, inclusive os que nos sejam aterrorizantes ou demasiado confusos.

Colocando de outro modo, mesmo que, afinal de contas, tudo não passasse de um sonho, podemos sempre ter uma reação de alívio grande, ou, quem sabe, de tristeza ao constatarmos que afinal tudo não passava de um sonho.


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cena de "A origem" (2010), dirigido por Christopher Nolan

Nossa sociedade, que não raramente costuma tratar estes fenômenos de forma unilateral, estanca aí, ao falar de sonhos. Não é de todo uma escolha ruim; é cauteloso considerar todas as hipóteses — inclusive a de que os sonhos não sejam nada.

Mas, entre o futuro, a ficção e o nada ainda há outro desdobramento, outro lugar de onde podem vir os sonhos, e este lugar é o passado. É aí que se encontra, na minha opinião, uma das grandes originalidades que estes autores, Freud e Jung, empreenderam eu suas respectivas teorias, a de tomar em consideração estas questões para o homem moderno. Uma assertiva desafiadora, até paradoxal, estranha à nossa cultura tão avessa a esse tipo de coisa: imaginar que, do mesmo modo que viajamos para entender nossa terra natal, podemos também sonhar para compreender o passado.

Antes se pensava que as crianças, por não terem o aparelho psíquico maturado, não podiam sonhar, ou que sonhavam sonhos inconclusos. De toda forma, esta opinião não se limitava apenas aos sonhos das crianças, mas a tudo o que dizia respeito a elas. A experiência clínica de Jung, contudo, relata(4) sonhos infantis não apenas assustadoramente nítidos, mas também com paralelos entre outras culturas. Isso leva à hipótese: não sonhamos apenas com nosso passado, mas talvez com o passado em si.

Desta forma, sonhar com o passado em si implica em considerar o sonho como algo vivo.


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Mas então, o que diferenciaria os sonhos? Como entendê-los, nas múltiplas faces que eles apresentam? É sabido que os produtos que emergem do inconsciente (dentre os quais se localizam os sonhos) não vêm com manual de instrução. Ainda assim, podemos entrever uma linguagem neles(5). Talvez nisso esteja a tentativa mais sofisticada de relacionarmo-nos com os nossos sonhos — uma tentativa que não é propriamente moderna, mas sempre reveladora.



1: Daniel, cap. 04. Exemplo: http://www.bibliaonline.com.br/acf/dn/4
2: um paralelo que recomendo é o feito pelo Neil Gaiman, na sua obra mais conhecida, Sandman: o único irmão que aceita acompanhar Delírio na busca por Destruição é ninguem menos que o vaidoso Sonho (Vidas Breves). Há também outra aparição de Sonho durante o capítulo de Delírio no último encadernado, Noites sem fim.
3: um fato interessante sobre as alucinações psicóticas: elas ativam as áreas correspondentes às sensações no cérebro da mesma forma que nos fenômenos ditos normais. Uma pessoa que ouve vozes não apenas finge que ouve — o cérebro dela funciona do mesmo jeito que o meu e o seu quando ouve alguma voz, as mesmas áreas relacionadas à audição e compreensão são ativadas.
4: há um resumo do caso no capítulo "Chegando ao inconsciente" do O homem e seus símbolos. Mais detalhes na análise do mesmo caso feita por Jolande Jacobi na segunda parte de seu livro Complexo, arquétipo, símbolo.
5: Jung compara o seu método de interpretação dos sonhos a um método filológico. Para entender o texto, temos de olhar os paralelos entre o texto e o que o circunda. Essa explanação é mencionada, por exemplo, numa das Conferências de Tavistock (Fundamentos de psicologia analítica). Encontrada de forma mais apropriada ao longo da obra num dos textos do volume 16/2, aqui no Brasil, Ab-reação, análise de sonhos, transferência.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Pontuações em cima de um vídeo moderno e contemporâneo.

 35, argentina, solteira, judia. Nenhuma dessas palavras ela inventou.
um mundo bom, com apenas quatro caminhos que se misturam



  • Múltiplos lugares me disseram que o vídeo foi "viral". O que é viral? Talvez a própria definição de "múltiplos lúgares" seja a culpada disto tudo. Por "múltiplos lugares", me refiro a facebook, página do N.Y. times, blog de cultura. Vê-se: quanta pluridade. Mais ou menos igual a "este lado" e "aquele lado" da piscininha.
  • Claro, talvez haja muito no fato de filmar os namoros e guardar as fitas mesmo após os términos. Mas por outro lado talvez não haja nada de errado em filmar a vida por si, usar como forma de expressão pessoal. Se não era pra filmar a própria vida, do que é que ela iria falar, então? Das conquistas do Partido? 
  • Bom lembrar que isto é só um filme: a protagonista filma muitas coisas, inclusive a própria vida. O apartamento de tumblr não veio do nada: ela trabalha como assistente de direção, ela passa o dia filmando outras coisas.
  • O que me leva ao ponto: o resto da vida dela não aparece porque não cabe na narrativa. O vídeo todo é um exercício de identidade. Tudo serve a um propósito, o de ilustrar o que ela é, ou quer ser, e nunca o que ela fez ou não.
  • A matéria original que acompanha o vídeo fala sobre a solidão contemporânea. Mas a solidão não é um fenômeno contemporâneo: talvez muito mais a forma com que lidamos (ou não lidamos) com ela é que caracteriza os nossos tempos do que a solidão em si.
  • A solidão é talvez evidenciada, percebida. É uma questão mais de percepção do que de objeto. Temos muitas maneiras de se expressar ao nosso alcance — e talvez achemos que não deveríamos estar sós.
  • Se isso também lhe exime de ir ao casamento das amigas, bom pra você. Mas ainda assim, a conta não fecha. Aliás, muito estranha, uma vida — fora dos vídeos — que fechasse 100%.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Sobre os conselhos terríveis que nos dão.

Um dos piores: seja você mesmo(a).



Dizer pra você ser você mesmo é, no mínimo, infrutífero. Você já é a si mesmo. Você não pode deixar de ser a si mesmo. E assim, sendo a si mesmo não ajudou muito até agora na sua situação. Muito provavelmente, é justamente pelo fato de você ter sido você mesmo que você está onde está agora. Outra pessoa estaria em outro lugar, de outra forma.

Numa acepção menos radical, mais simbólica, "ser você mesmo" equivale a dizer, com poucas palavras, "seguir os seus próprios referenciais". Mas não diz: ser você mesmo é seguir os seus referenciais, mas seguir os referenciais não é ser a si mesmo. Ainda assim, isso supõe que os referenciais, assim como a sua identidade, sejam estáticos, imutáveis.

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Se alguém não está sendo a si mesmo(a), quem ele(a) está sendo?
"Uma propaganda enganosa, uma falsidade, um embuste. Tudo menos ela mesma."

E eu digo: sim, mas o embuste não existe? Tanto quanto uma verdade. Uma pessoa falsa, recalcada é justamente isso. Quem disse que falsidade não existe no mesmo nível que a verdade acidentalmente alguma coisa aí. Essa simplificação de verdade faz exatamente isso que eu fiz na sentença anterior: suprime, sopesa, altera, elimina um termo essencial para a compreensão.

* * *

Numa das aulas da faculdade, há muito tempo atrás, quando o professor falou de uma aceitação incondicional, um dos princípios de uma determinada linha teórica na Psicologia, eu perguntei:

- Mas e se, por acaso, a pessoa vier até o seu consultório pra ficar mentindo descaradamente, o que é que eu faço? Como é que pode haver terapia, se nada que ela diz corresponde aos dados da realidade dela?
- Ora - respondeu o professor - você vai escutar ela mentindo do mesmo jeito que vai escutar ela falando a verdade. O importante não é saber se ela está falando a verdade ou não, o importante é que a mentira é a mentira dela. (1)

E, de certo modo, você, em toda a sua falsidade e enganação, nunca vai escapar de ser a si mesmo.

Há muito mais nuanças em todas as pessoas do que a norma costuma ver. O bajulador e o honesto muitas vezes são chamados pelo mesmo nome. Muitas vezes o cidadão de bem e o sádico ocupam turnos dentro de um corpo, o agressor doméstico e o bom profissional se revezam. Não adianta dizer que apenas um lado existe: não somos unidimensionais.

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E qual a alternativa, então?
Não diga nada. Ou diga, se for pra dizer, diga o seguinte: seja o que você já é. Talvez isso não seja o que ela queira ouvir, mas não é menos verdade.






1: Evidente que esta conversa não se deu ipsis litteris; o autor - no caso, eu - tentou preservar o máximo de sentido, mas não garante que os dados da realidade correspondam ao da letra.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Um aviso.

É importante atentar para o palavreado que às vezes você carrega na cabeça.

Seja feliz. Encontre um amor. Tenha uma carreira. Tenha um bocado de amigos. Seja valorizado. Seja lido. Seja reconhecido. Seja bom. Olhe para ela. Ele falou com você: responda. Pare de comer merda. Fume menos. Beba menos. Minta menos. Lembre daquilo. Vá lá duma vez. Diga alguma coisa. Seja humilde. Lembre-se. Não estrague tudo de novo.

Se você não der conta, cada uma dessas sentenças vai exigir tempo, corpo e vida para si, e não há nenhum deles o suficiente para todas.

E, além do mais, você precisa saber quais dessas sentenças são as suas.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Aeroaracnocinofobia.

um dos modos mais usados de se falar sobre o horror: piada.


Uma das coisas interessantes acerca dos nossos medos é que, assim como nossos desejos, eles são únicos, incombináveis.  Todos os medos combináveis são outra coisa.

Quer saber? Já usei esse exemplo em outra ocasião: é muito comum o horror frente a um monstro e frente a um espírito, um fantasma. Não é muito comum o horror frente ao espírito de um monstro.

Uma mantícora, uma criatura mitológica, compreende de um corpo de leão com uma cabeça de homem: ela sintetiza o que há de misterioso e inacessível dentro de um homem e dentro de um leão. Por esta razão, a mantícora é uma aberração, e nem mesmo os que lhe poderiam ser simpáticos não o são por reconhecimento de uma igualdade. A figura da mantícora inspira estranhamento, mas não porque ela é uma mantícora. Não há uma humanidade na mantícora - ao mesmo tempo, há alguma humanidade na mantícora.

Os teóricos da psicologia profunda, que estudam o inconsciente, o desconhecido na constituição de nossa psique, atestam, seguindo vertentes diferentes, a importância das reações de medo e horror como expressão desse "algo" que nos bate à porta. Ao se falar do aspecto projetivo na constituição do sujeito segundo Jung, poderia se pensar: se este "algo" terrível com o qual me deparo não sou eu (pois eu não sou terrível, não me acredito terrível), o que é esse algo?
E mais importante: por que ele parece vir até mim?

terça-feira, 9 de abril de 2013

"O problema é que ele sou eu".

Se você só atrai vampiro e lobisomem, o problema não é que o mundo é habitado por criaturas fantásticas, o problema é você.

ou:

Nem todas as mulheres são loucas: existem também as não-loucas. Nenhuma delas lhe interessou.

dá no mesmo. escolha o seu destino.

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É o mesmo funcionamento com duas particularidades: se você não pensa no outro como uma pessoa com identidade própria, separada dos seus anseios/medos/desejos, decorre que você vai achar o outro terrível por que ele fez alguma coisa com você que não podia. Mas, antes de tudo, antes de ele fazer (ou poder fazer), era preciso que você estivesse lá.

"O problema é que ele sou eu". Você nunca poderia ter dito isto. Nunca é fácil assim.

A pergunta que importa, que vai além desse relacionamento e de todos os outros não é por que vocês estão brigando, mas o que aconteceu para que vocês dois estivessem juntos até agora, até brigarem.
Não é como está agora, mas como se construiu, como permanece.

Dizer nada não vale.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sobre o Super-Homem.

não apenas arte.


É, no mínimo, curioso que digam que esse novo filme do Super-Homem tenha uma "pegada realista". Quer dizer, o rapaz veio do Planeta Krypton, voa, é mais rápido que uma bala, mais forte que uma locomotiva, tem visão de raio-X... completamente realista. Oh, e ele é órfão de pai e mãe. Criado por pais terráqueos adotivos, que lhe deram forte educação moral e o ensinaram a respeitar e valorizar o nosso mundo. Viu? Ele tem uma humanidade.

É a grande premissa do Super-Homem: a humanidade que ele adquiriu não divide bem espaço com os seus superpoderes com os quais ele nasceu. Logo, o Super-Homem não pode assumir nenhum dos dois lugares por inteiro, o de kryptoniano e o de terráqueo.

Mas a pergunta que ninguém faz, exceto os vilões, é: porque ele iria querer isso? Ser um homem comum? O que faz valer ele abdicar dos seus poderes para se encaixar no mundo?

Seja o que você for responder, não responda. Você não sabe o que é. Está fora de sua alçada. Você não consegue amassar um pedaço de carvão com as mãos e transformá-lo em diamante. Nem tente.

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Por outro lado, o que é que há do Super-Homem para nós? Qual é o fascínio que ele exerce?

Podemos olhar o nosso Super-Homem dos nossos tempos como um espelho de nós mesmos. O herói tradicional redime o seu povo através dos grandes atos; tudo o que o herói de hoje parece querer redimir é a si mesmo, através dos pequenos atos. Enquanto o Super-Homem mais antigo tentava levar uma vida dupla de jornalista e super-herói, o nosso Super-Homem vai se refugiar num barco pesqueiro. 

Toda essa grande ênfase do Super-Homem moderno com relação ao seu convívio com o mundo é o que nos é posto em primeiro plano. Isso tudo é muito necessário, mas é importante lembrar que estamos falando de super heróis, há uma outra questão que não pode ser minimizada: a de que o fato de que num mundo em que é possível existir um Super-Homem possam existir também coisas muito mais fortes que um Super-Homem.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A intenção e o conselho de Kafka.

corte o resto e se mantenha nas palavras.


Vocês podem saber de forma bem fácil o que aconteceu. Uma agência de publicidade veiculou esta peça em questão parabenizando o Dia do Ginecologista. O infortúnio foi que eles não haviam atentado para a possibilidade de que a mensagem veiculada na sua peça publicitária poderia ser tomada como algo de extremo mau gosto. Quem diria. Pauta do próximo meeting: colposcopia talvez não seja tão sexy quanto nós achávamos.

Mas voltemos. A agência soltou a peça em questão num veículo de publicidade, recebeu críticas, apagou a postagem e, através do mesmo veículo, publicou alguma coisa que ela chamou de pedido desculpas: "Pela simples razão da intenção. Não a tivemos"[1]. Ok, anotado. Muito satisfatório aos dias de hoje. Mas há alguma coisa bem grande (convenientemente) deixada de lado.

* * *

Uma das maneiras de se ler um discurso que tem no meio um belo "mas" é ler apenas o que aconteceu depois do "mas" e descartar o que veio antes - afinal tudo o que veio antes é nada mais que mera intenção, só aconteceu na cabeça de uma pessoa. O discurso em si é uma tentativa de conciliar o que uma pessoa pensa e o que sente (ex: "Eu te amo, mas..."), aquilo a que só ele tem acesso direto, com o que aconteceu de fato (ex:"...estou indo embora."), a parte pública e observável da história, a parte que existe fora da cabeça dela. Apenas uma tentativa, vale dizer. Como conciliar dois irmãos pequenos, disputando uma coisa só. O "mas", então, vem para manter o equilíbrio, mesmo que de forma instável. Vai possibilitar que sejam ditas as duas coisas concomitantemente, e passar a ilusão de que se perdeu o mínimo possível, que o mínimo possível foi embora. A ambiguidade nestas questões é a condição de que estas coisas existem, de que o status quo se mantenha (ex: que seja possível amar uma pessoa e abandoná-la ao mesmo tempo)[2].

Entenda, o problema é real, a própria pessoa realmente não consegue reconciliar as duas coisas entre si: ela não entendeu o conselho de Kafka ("na luta entre você e o mundo, favoreça o mundo.") O problema não é que ela não ame, o problema é que, para ela, ela realmente ama; ainda assim, ela realmente vai embora.

E dentre as alternativas possíveis de se desembaraçar propriamente essa ambiguidade, uma delas é negá-la. Daí o "mantenha-se nas palavras". Ficar apenas no compartilhável, no traduzível. O resto se rearranja de acordo. Ao se aplicar isto na propaganda em questão, ficamos com uma proposição interessante: invejamos vocês. O que há para invejar em vocês, o que causou tanto mal-entendido, foi o acesso a partes do corpo feminino.  E o que nos autoriza a invejar (e poder dizer isso escancaradamente) é o fato de que vocês, ginecologistas, são profissionais (e não só profissionais, estritamente profissionais).

Ora, o "mas" sobreposto a isso mascara o fato de que, na verdade, não há razão para ninguém invejar ninguém: os ginecologistas referenciados são profissionais (estritamente profissionais), não estão interessados no que o autor está; a propaganda gira em torno de si mesma o tempo todo. Tudo o que está acontecendo nesta situação é que se fala ao outro, mas tudo o que se fala ao outro não é sobre o outro.

E é isto o principal, não só desta propaganda, mas da propaganda em si: engana-se quem acha que ao público-alvo desta propaganda se limitava apenas aos ginecologistas. Por que não publicar num órgão específico, e sim no facebook? E o principal, o que ninguém notou: por que o "Nós", bem grande, em maiúsculo, no meio da sentença? O que isto tem a dizer? "Eu sei que você não gosta de pastel, mas ainda assim eu te invejo porque eu gosto de pastel. Oh, e você vive rodeado de pastel. Parabéns." Não, não é sobre os ginecologistas, de fato, nunca foi.



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[1]: Esta alguma coisa que chamaram de pedido de desculpa foi redigida por um mestre, como se pode ver na última frase: "Falhamos de não nos comunicar perfeitamente."  Só alguém que manja muito termina um pedido de desculpas fazendo a pessoa a quem ele pede dizer ou pensar "eu sei", encerrando o assunto.
[2]: O que une e possibilita o convívio destas duas acepções impossíveis é justamente um terceiro nível de discurso, mais difícil de observar, tudo aquilo que não foi dito nem para si e nem para a outra pessoa (ex: "...e a verdade é que é maravilhoso ir embora - mesmo que seja horrível.").

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O antagonista.

ali, adiante
numa relação de dois participam três.


Olá. Deixe eu me apresentar. Sou o novo namorado da mocinha. Não sou o mocinho: ele não está aqui neste momento. Foi separado de sua amada por um plano maligno de minha autoria; está lá fora, distante. Está prestes a saber que ele precisa mudar pra não perdê-la.

Enquanto isso, ela, quase linda, está aqui do meu lado; peço para que se anime um pouco, fique mais coradinha; outra coisa mais seria grosseria. Ora, vocês acham que não vejo que a mocinha não tem um pingo de desejo por mim. Acham que ignoro que a motivação dela estar comigo não é - nunca foi - amor, aquilo que vocês chamam de amor, aquilo que vocês aprenderam sobre amor na televisão e no cinema. Acham que é tudo vaidade minha, quando, na realidade, a vaidade é de vocês. Vocês não sabem de nada: vocês acham que eu sou cego e orgulhoso e não vejo o quanto ela, no fundo, ama, deseja aquele outro rapaz. É claro que sei. Qualquer um saberia: é por isso que estamos aqui.

Eu sou - não, melhor-, estou neste lugar de contraponto. O outro rapaz, o que é o melhor para ela (se alguma coisa desse tipo existir), brilha em comparação a mim. E não seria por menos... tudo o que ele é e o que ele faz foi planejado para que vocês gostassem dele, se identificassem com ele. Para que, ao menos num instante, reconhecessem alguma coisa de si nele. Vocês amam igual a ele, vocês sofrem igual a ele - mas nem percebem que tudo o que ele é foi feito sobre medida para vocês? O mocinho é completamente artificial. O mocinho é uma roupa, é um boneco. Um espelho. Ele está lá fora, sem ela, neste momento, eternamente em perda, suspenso da responsabilidade e do tédio de manter algo. Só a dor, e a perda, claro. Ele vai ter que mudar. 

Daqui a uns instantes ele vai chegar aqui, e junto dele vai chegar a mudança. Meu tempo já não é tão longo, preciso da ajuda de vocês. Gostaria que vocês imaginassem, uma história, é mais ou menos a seguinte:

Rapaz conhece garota. Eles se estranham. Eles se descobrem. Eles se apaixonam. Alguém dos dois foge, se ausenta. Tragédia. Ele sente que precisa provar o seu valor. Ele prova. Cartase. Fim.

Já ouviram esta história, inúmeras vezes? Eu estou nela, condenado a assisti-la, repetidamente, à revelia. Sou tão coadjuvante quanto, por exemplo, a amiga da mocinha, e não é à toa que às vezes eu termino formando um par amoroso com ela.

Mas, veja, veja só isso. Aí vem o mocinho, já escuto a confusão que ele causa do lado de fora. Tudo o que peço é que vocês olhem pra mim e digam, me salvem, me tirem do lugar de onde eu cumpro minha eterna danação, apenas respondendo isso: 

Poderia ter sido eu, não? No lugar dele?
 
Pensamos em todo tipo de coisas bonitas nessa hora, menos no fato de não escolher por quem somos amados. Mesmo que a história se repetisse. Eu disse antes que a mudança está vindo, mas a verdade é que não há mudança; é tudo um ciclo que nunca acaba. Em outros lugares, não há este fim - isto que chamam de fim é só o começo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Conjecturas.

onde o medo se foi não haverá nada.


E se você não fosse a última Coca-Cola do deserto? Já parou pra pensar?
E se você fosse mais arrogante do que acha que é?
E se você não fosse bom o bastante?
E se desse errado no final?
E se você tivesse desejado o mal?
E se você o que você quer não bastar, nunca bastar?
E se você se arrependesse e não pudesse dizer pra ninguém?

Se aquele medo todo que você sente não é, na verdade, alguma forma maluca de você se proteger de alguma coisa que você nem sabe ao certo o que é?
E se, por acaso, você tivesse medo de saber?

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Doze dicas para não mudar a sua vida.


 o problema não é entender o mundo, o problema é lembrar depois.


Aqui vai uma dica de como mudar. Não se preocupe, você vai lê-la e não vai mudar apenas por ter lido.

A dica é essa: mudança nenhuma pode ser escrita. Porque simplesmente não.
Tudo o que podemos fazer é falar após a mudança. Ou antes dela. Ou, quem sabe, ao mesmo tempo em que mudamos. Mas não devemos confundir as palavras pela mudança em si. 


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Para ilustrar, imaginemos um homem hipotético que emagreceu 28 quilos e uma mulher imaginária que começou a se arrumar e a dizer "sim, eu quero, eu faço questão disso". Eles dois, merecidamente, têm todo o louvor pelo que fazem e fizeram. Eles talvez podem até ter seguido "Os Passos Para O Sucesso" da moda, lido as colunas da terapeuta do amor da estação, mas, devo colocar a pergunta: onde, exatamente, aconteceu a mudança? O que pode lhes diferenciar do monte de outras pessoas que são viciadas em consumir autoajuda, indicações, orientações, exercícios, visualizações?

Ora, vejamos: muitos desses produtos não fazem as pessoas mudarem. Minha dica, por exemplo não vai fazer você mudar e você já sabia disso antes de lê-la. Alguns manuais, um pouco mais atentos, já explicitam diretamente que não depende deles. Alguns até te falam o porquê de você não mudar, de forma bem explicadinha (e espirituosa), e você concorda, bestamente, "é verdade, eu não mudo", e aí acha muito inteligente o autor, ele realmente fala de forma sensacional, gostei muito, vou comprar os outros livros dele.

Mas, mas... é por isso que você não muda! Porque você concorda! Ninguém te obrigou a ler o livro, você que foi lá com uma pergunta implícita na cabeça e teve a resposta que pediu. Saiu satisfeito como sairia de um fast-food mental: pediu um número 5: "Eu quero mudar" e saiu com uma lista de outras frases lindinhas.

Muito legal, bacana, maravilha; o problema é que isso é absolutamente inócuo.


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Sabe qual a grande maneira mais certa, garantida, de passar num vestibular ou concurso, maneira essa testada e aprovada por todos os candidatos de sucesso?
É, isso mesmo, você acertou, é indo lá e fazendo a prova. É a melhor maneira, até hoje, ainda não surgiu uma que superasse. William Douglas pode atestar o que eu digo.

Não adianta dizer que vai estudar. Não adianta ver as dicas para passar em concurso - todas as dicas que dão certo contêm em algum lugar delas o seguinte predicamento: "vá lá e faça". Misteriosamente, você já sabe disso e talvez você ignore. Deve haver alguma outra maneira.

Do mesmo jeito sãosomos elasnós, as pessoas que querem mudar: elas dizemos "eu quero mudar pra melhor". Mas aí que está a tragédia: elasnós não podemos querer mudar. É um pedido vazio, ilusório.  Ao invés de querer mudar, a única coisa que elas fazemos concretamente é querermos ser uma pessoa que muda. Estãomos fazendo isso tanto que não se nos damos conta de que o quanto não queremos é mudança, mas validação da mudança.

Que é justamente o que nós não temos assim, facilmente, nos dias de hoje.

Talvez nós olhamos muito mais para o que é que nós queremos mudar e esquecemos (ou nem queremos ver) em nós o que é que não muda, o que se repete.

Tente lembrar disso, se for capaz.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Aquilo que não ______.

talvez não haja nada realmente errado com o chão que você pisa.
 

Não há fotos sorridentes em alguns lugares da própria vida. Pode-se imaginar que o que existe nas redes sociais são as fachadas, varandas, marquises, os espaços grandes, iluminados, confortáveis, cheios de imagens publicitárias, sorrisos, lustres, copos, flashes, dourados, esperanças de lutas e bons augúrios.

E há os outros lugares além destes: as cozinhas, os vestiários, os becos, as ruelas, os sótãos, os porões. Os espelhos. Alguma calçada escura, iluminada por um poste. Os arrependimentos. Um momento na sua infância que não deve ser compartilhado, senão vira pó. Uma pilha de curriculum vitae com as coisas que você tentou e falhou. Algo, ou alguém, ainda lá.

Ninguém vê você indo até estes lugares, saindo às escondidas no final da festa.

Por  trás de alguma parede falsa naquela sala de jantar cheia há uma escada que desce para o fundo. Nós o convidamos para descer lá embaixo, ou então sair de lá.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Apontamentos sobre a psiquê.


Há uma noção de real: um mundo à porta do observador, um lugar onde não podemos alcançar. Um mundo sem linguagem, sem cultura. Um mundo onde o absurdo não é nem ao menos absurdo. Não havia pensamento – o pensamento só pode ser proposto num lugar onde haja linguagem. Um mundo onde não estamos lá.
Há, então, o Eu nesse mundo. Nos constituímos a partir da nossa interação com o meio – há os nossos aparelhos de sensopercepção, nossos processos de captação e decodificação da realidade. Há a memória e a cognição. Há a capacidade de fabricar instrumentos e de utilizá-los, de guardá-los. Depois há a capacidade de transmitir essa fabricação de instrumentos.
A mente é o lugar onde nós criamos outros instrumentos, de segunda ordem. É a instância que talha uma ponta-de-lança que não é feita de nenhum material específico. Que transforma uma pedra num instrumento de contusão. Só que ainda não houve pedra e não houve lança.
Esses instrumentos são utilíssimos. Mas eles não podem ser utilizados contra o que é real. Para o real é necessário pedras e lanças mais sólidas.
Há a linguagem. Ela não está aqui nem ali. Ela é o inverso do real. Se o real é tudo, a linguagem é incompleta; se o real nos escapa, a linguagem diz aquilo que pode ser dito.
E o “nos”, de “nos escapa”, também não é do real. Toda consciência deriva de linguagem. Anote isso.

sábado, 31 de março de 2012

Beleza e passado.

É interessante perguntar a si, durante aqueles momentos em que você se acha a pessoa mais horrorosa da face da terra: onde e quando eu fui bonita(o)?

Quase sempre a sua resposta é um instante, que (não por acidente) passou e não volta mais, já era, c'est cassé. Sempre para trás, nunca aqui, nunca deste ponto: ou você era mais jovem ou era mais magra ou era mais musculoso. Você não era nem essas coisas todas naquela época, mas hoje, quando você vê, você não sabia que era mais bonito naquela época do que você iria ser hoje, neste momento, quando você indaga. Você era mais adolescente do que é hoje, mais cheio de vida. Você era - sim, isto é bonito, agora - mais estúpido. Você era criança naquela sua resposta e hoje você não é. Ou ainda, na intermitência de você nunca ter sido uma criança bonita (e, lembre-se que toda memória é um julgamento), você era um bebê. 

E, talvez, se nem aí estivesse a sua saudade, se não restasse nenhuma lembrança, nenhum tempo bom, a sensação é a de que há ao menos alguma coisa, algum desejo.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O terror e o vislumbre.

 ali, no fundo, onde não está.


Ontem fomos assistir A Mulher de Preto no cinema. O filme trata da adaptação de um livro de 1983: um advogado, pai, viúvo, é despachado pela sua firma a um vilarejo para cuidar dos papeis de uma antiga cliente, uma viúva, agora falecida. Não é preciso dizer que o terror (sim, o terror - o livro é de terror, o filme também) vai muito além da burocracia e do propósito do rapaz.

(Antes de tudo, uma palavra de esclarecimento: aqui, quando estou falando de filme de terror, não estou falando daqueles filmes de banho de sangue que são "encaixotados" na mesma categoria, e que, são, na verdade, manifestações bem mais rasas - os slasher movies. Terror, na minha acepção, não se limita a sangue, sustos, reflexos - embora estes filmes também tenham o que dizer sobre nós. Terror é algo muito mais demorado e perene. Pense muito mais n'O Bebê de Rosemary do que em Sexta-Feira 13, por exemplo, embora a teoria valha pra ambos.)

Pois sim, até então, tudo ia nos conformes. Havia um ar de suspense, uma hesitação. A trama ia se constituindo. O filme já estava bem nos seus 30 minutos iniciais, quando, de repente, no cinema, lotado, pôde-se entrever que havia alguma coisa fora do lugar. De início, quase que de forma imperceptível, algumas pessoas. Algumas em menor grau, outras em maior grau. Com o tempo, passando os minutos do filme, enquanto as coisas começavam a ficar fora da realidade, era possível perceber que parte do cinema estava tentando rir.

***

Uma acepção pessoal é a de que filmes de terror bons são muito mais difíceis de fazer que filmes românticos. Afinal de contas, o material dos espectadores sobre o qual ambos trabalham é muito diverso: os filmes de romance mexem sempre com alguma vontade de ser amado. O caminho clássico é o seguinte: a personagem principal conhece o seu par, se apaixona, obtém um momento íntimo de ligação, se separa, muda, melhora e volta a conquistar o seu par. Mas, de qualquer modo, nunca houve uma dúvida real. Tanto que uma das mensagens bem comuns nesse tipo de filme é: siga o seu coração. 

Se você for ver, no caso dos filmes de terror, acontece o oposto: os filmes de terror trabalham sempre com alguma coisa que não é deste mundo, mesmo que seja. Não é à toa que muito dos recursos utilizados para se aumentar a tensão do espectador são, por exemplo mostrar o que não está lá. Um canto de parede, uma porta, um corredor, um espelho... é quase certo que um filme de terror tenha um espelho em cena, nem que ele não reflita nada, assim como é quase pré-requisito que ele tenha uma cena em que se enquadre o rosto da personagem, de costas para um corredor escuro, desfocado e... com nada atrás, também. Afinal, que outra coisa pode assustar mais que aquilo que não está lá, nem deveria?

E por que, afinal, você iria pensar que estaria? Esse é o grande truque dos filmes de terror. 

Qual é aquela impressão comum que se tem ao ver todos os grandes antagonistas dos filmes de terror? Ora, o mal que há nos filmes de terror quase sempre é um mal que não nos pertence: um mal muito maior, mais vasto, mais amplo, imperdoável, inconcebível em sua totalidade. Um mal que não é nosso e que, portanto, não teria como nos obedecer. Que só poderia ser adiado: um mal que, apesar de nossas tentativas, no final das contas, seria um mal insolúvel. Ou você acha que você poderia negociar com a Samara? Pedir licença ao Pazuzu?

Pode notar, caro leitor, que tudo com o que nos assustamos mais nos filmes de terror tem a ver ou com monstros ou com espíritos - mas nunca com espíritos de monstros. Todas as exceções desta regra têm um rosto humano. Pazuzu é o fantasma de um monstro (e na verdade, na vida real, é um deus antigo), é verdade - mas o que assusta nele é que ele possui uma menina.

Esta é a coisa mais interessante de todos os filmes de terror, é isto que ele tem a dizer das ficções de nós mesmos e é justamente sobre esta ótica não é surpreendente que nós vamos ao cinema, assistimos os filmes, e, ainda assim, no meio da sessão, temos o ímpeto de evitá-los, virar o rosto ou rir, e tentar evitar daquilo que está à frente: a representação do mal, ainda assim uma representação, ainda assim um mal que assusta, um mal com o qual não podemos, em última instância, lidar. Caso contrário, nós teríamos alguma coisa dele em nós mesmos. Da mesma forma que alguém só é taxado de esquizofrênico se não se comportar direito, ou da mesma forma que consideramos que alguém que mate outras pessoas tem alguma coisa de inumano. Não poderíamos, não estaríamos preparados a pensar de outra forma, e é isto o principal componente do horror da coisa.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Mulherzice #2.

Ela explicou a ele duas vezes e ele ainda não entendeu. Não do jeito dele.
- Não é suficiente - ela diz. - Não basta.
- E o que que bastaria?
- Se ele soubesse o que eu quero.
O silêncio entre os dois teve a duração de um suspiro.
- Basicamente, você quer que ele demonstre o amor dele por você, não perante os outros - muito pelo contrário, se ele demonstrar para os outros o amor que ele sente por você vai causar uma calamidade mundial -, mas só e somente pra você mesma. Faz sentido?
- Um pouco.
- Aquele amor que é só seu.
- Isso.
Passaram um tempo sem dizer qualquer coisa um ao outro.
- Você quer, então, que ele prove a você que ele acha que você vale a pena. - ele concluiu.
- É.
- Mais do que qualquer outra pessoa.
- É.
- E você já não sabe que ele gosta de você?
Ela interroga ele com um olhar e ele se sente um pouco estúpido em ter peguntado.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Teste de múltipla escolha.


  mais ou menos como a vida.


1) Se você pudesse escolher, em cada par, somente uma característica, quais você escolhia? Preste bem atenção, que os resultados escolhidos vão dizer muito do que você é:
a) Verdadeiro/ Fiel
b) Intimista/ Sensitivo
c) Vaidoso/ Resiliente
d) Criativo/ Relaxado

Para responder às questões 2 e 3, utilize-se da seguinte situação:
Suponha que você seja um ser humano que morasse num lugar não muito grande, não muito pequeno, mas lotado de outros seres humanos. Para se ter uma ideia, seria possível, nesse lugar, percorrer toda a extensão, mas seria muito improvável de você ver ao menos uma vez todos os seres humanos na vida.

2) Como você iria saber que é um ser humano?

3) E se você estivesse enganado?


Para responder às questões 4 e 5, utilize-se da seguinte situação: 
Suponha que não haja final feliz que nem nos livros e filmes. Suponha, aliás, que o final, bem como diversas outras coisas, é impreciso. Que os outros seres humanos não são nem ruins nem bons.

4) Você seria ruim ou bom?

5) Como você reagiria frente a isto tudo?


* * *

6) Um homem encontra-se, anualmente, na mesma data e horário, com o espectro de si mesmo quando em plena juventude. Ele fica cada vez mais infeliz com o passar do tempo, ao ver que os conselhos que dava si mesmo, na esperança de que não cometesse os mesmos erros e passasse as mesmas dificuldades pelas quais ele passou, não surtiam efeito - embora seu espectro saísse desses encontros plenamente consciente das escolhas do futuro, ele, o do futuro, continuava a ser ele mesmo.
O homem esperava que, ao falar a si de coisas que ainda viriam na sua vida, que o ele jovem pudesse alterar o futuro homem, e que, num passe de mágica, o homem do futuro acordaria numa outra casa, com uma outra família - ou, pelo menos, na mesma casa, com os mesmos filhos barulhentos e a mesma mulher cansada, enquanto que ele seria uma pessoa completamente diferente. Isto nunca veio a acontecer.

Explique o que este homem fez de errado.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Elegia ao poeta sem talento.

Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu.
Já não caibo mais em mim.

Sinto um turbilhão de coisas, e sou tão complexo, meu Deus,
Que tenho saudades de alguma coisa que não vivi ou não ousava viver. Sei lá.
Tenho saudades de mim mesmo e outras figuras terríveis de linguagem.

Sou eu quem faço os poemas que não são para ninguém.
Se a pena e o verso são instrumentos de escultura,
Quero dar a mim - ai de mim! - o meu melhor espelho.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sobre a palmada.

se o problema não está nele, a solução também não está.

 
Por um lado, existem os pais que dizem "não, eu nunca machuquei meus filhos, uma palmadinha de vez em quando não machuca ninguém", enquanto os filhos não podem dizer nada sobre o assunto enquanto crescem. Por outro lado, se os pais não podem dar a palmada, quem é que vai dar? Como o Estado vai regular os pais, em sua maneira de regular os filhos? Até onde é possível ir? Qual é a tal da diferença entre palmadinha e castigo físico, se são dois comportamentos de bater na criança (ou aplicar correção, ou qualquer outra suavização de palavras que se preferir)? Como que se pode fazer o que a palmada fazia sem as complicações que ela causa?

Uma palmada é uma maneira rápida, quase instantânea, e eficiente de corrigir um comportamento errado. Mas ela tem uma série de características adversas:
  • não age nas causas do problema, apenas em sua manifestação final (não acaba com a vontade de "se danar", por exemplo);
  • centra no indivíduo infrator todo o problema, minimizando o ambiente (o menino que quer meter o dedo na tomada, por exemplo, pode achar que a sua curiosidade é um problema - enquanto a tomada está ali);
  • não funciona a longo prazo, o que atesta a incrível capacidade de adaptação do ser humano (que se acostuma igualmente com o que é prazeroso e o que é repulsivo);
  • distancia quem levou de quem aplicou (ou seja: não existe essa história de "reconhece por que apanhou", num nível mais profundo - a pessoa pode até saber, na sua cabeça, que errou, mas isso não tem nada a ver com dor que ela sente; dor é dor - naturalmente, quem é responsável por aplicar-lhe essa dor não vai se tornar uma companhia muito agradável);
  • acaba suprimindo outros comportamentos que não têm a ver com a história (quem apanhou por desenhar na parede pode acabar sentindo medo de desenhar no papel em branco, por exemplo). Isso leva à rigidez, estereotipação e, o que é um problema seríssimo, medo de criar soluções novas, já que
  • (essa eu deixei por último, e é a mais importante) a palmada não ensina o correto, apenas elimina o errado. 
Neste sentido, é interessante notar que a interdição da palmada realizada pela a própria Lei da Palmada (como está sendo reconhecida a mudança no ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente) efetua, em função, a mesma coisa que ela proíbe. A Lei veta o castigo físico em crianças e adolescentes, dado por quem quer que seja, mas não ensina a diferença entre castigo físico e educação. Ela procura homogenizar as formas de educar em casa. Nem mesmo cita a forma adequada de se criar, apenas dá as diretrizes gerais (liberdade, respeito, dignidade, direito de ir e vir, etc.) e atribui aos responsáveis a forma de garantir essas diretrizes.

Isso, por si, já seria algo significativo se a lei se cumprisse por si só: mesmo que o Estado manifeste a sua intenção de penetrar no círculo familiar mais íntimo, mais nuclear de seus componentes, a fim de lhes ajudar a criar seus sucessores, como ele iria fazer isso? Que lei pode atingir, regulamentar um ambiente que não é coletivo, mas particular?

A mudança, enfim, acaba se tornando mais um exemplo que atesta a posição do Brasil como um pais autossuficiente não em petróleo, mas em leis descontextualizadas: possui uma legislação moderníssima em algumas áreas e, no entanto, não percebe que leis não se aplicam a si mesmas caso sejam construídas apenas por propósitos, intenções muito justas e verdadeiras - que, no entanto, não dizem respeito à realidade social, a fundo. Não é na intenção da mudança do ECA que houve a discordância; a intenção é boa, é a de coibir casos e práticas abusivas que acontecem, e que são, como as piores práticas abusivas, invisíveis. O problema é que intenção e o que se dá na realidade não são, assim análogos. Os próprios pais que batem, agridem, machucam os seus filhos, além da conta (mas que conta?), que o digam: tudo aquilo que eles fazem, a que se sujeitam - pois também é ruim pra eles -, é pelo bem.

Ora, se é para o bem não se sabe, mas o que a experiência atesta que não existe uma espécie de não-palmada nesse mundo: se não quebra dum lado, quebra do outro. Onde, num mundo, existe mais de um sujeito, vai dar nisso: só temos à disposição um mundo só, e um mundo só é pouco para mais de uma pessoa que acha que ela em si é todo o mundo. Faz parte do processo de individuação de um sujeito, de seu crescimento pessoal, compreender isto - e é difícil. É ruim. Não poderia ser de outra forma: qualquer coisa que venha a nos dizer que não, que nós não somos a última Coca-Cola do deserto com gelo, limão e canudinho e que, além do mais, que o deserto está cheio, apinhado, de diferentes Cocas e refrigerantes, todos refrescantes à sua própria maneira, não seria lá muito fácil de entender. Mas não tem outro jeito.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Da necessidade de que assumam.

 direto do manual de maneiras erradas de mostrar que é independente


O rapaz bebe sua cerveja e resolveu falar à repórter. O resultado acaba sendo mais rico em significações que sonho de véspera.



Vem comigo: qual é mesmo o fato especial, o que dá sustentação a esse draminha virar notícia? Dou-lhe uma, dou-lhe duas...
...ah, ele assumiu. Assumiu que vai desrespeitar a lei. Não que ele dirigiu embriagado, mas que disse que iria dirigir embriagado, sem problema. Em frente das câmeras. Em frente de todo mundo. E não ficou mal por causa disso.

Não vamos seguir o mesmo caminho já seguido pela tevê. Não precisamos de redundância: o flagrante, a violação, o deboche, não vão ser o principal aqui. Todas estas coisas, francamente, servem pra mostrar não só que esse rapaz aí reconhece a lei como o seu desrespeito a ela atende a um propósito específico. Qual que seja, ele pertence somente ao rapaz, e, por mais que ele queira admitir alguma coisa na frente de todo mundo, é alguma coisa para ele [1]. Claro que isso também não exime ele de ter de saber, como todos nós, a diferença entre a calçada e o quintal.

O que nos leva de volta à questão do início: no momento da reportagem, ele não estava dirigindo, ainda, apenas manifestando intenção de dirigir. Por aí já se pode argumentar que a chamada da reportagem era exagerada, afinal ele não estava desrespeitando a lei, naquele momento (oras, dizer que vai matar já é alguma coisa, mas ainda não é matar). Mas aí também, por outro lado, a reportagem pode ter visto ele saindo e não colocaram na edição final. De todo modo, boa parte das chances é de que ele tenha mesmo saído embriagado, realmente colocando gente que não tem nada a ver potencialmente em perigo.

Aí tem o outro lado: muito provavelmente ninguém denunciou. A reportagem veio, filmou e foi embora (ou quem sabe, ficou pra tomar umas). É bem provável, também, que ele não tenha sido o único daquele recinto a beber e sair dali dirigindo. Aliás, boas chances de que ele tenha sido parte da maioria. Imagine você, se você fosse ligar pro órgão de trânsito da sua cidade, se todo mundo fosse ligar quando acontecesse coisa desse nível pra fazer uma denúncia dessas:
- Moço, tem um rapaz aqui que bebeu e vai dirigir!
- É? Pois segura ele aí que tem uns quarenta na frente dele, além de dois acidentes graves e um atropelamento ali na Curva da Viúva.

É preciso levar muita coisa em conta por detrás dessas questões, e aí que se vê que o abaixo-assinado proposto não vai dar certo, mesmo que dê: afinal, quem é que vai fiscalizar isso? E, mesmo que fiscalize, quem vai ser o fiscal que vai acabar com o ímpeto de beber, de dirigir, de correr, de confrontar, mostrar aos outros que pode, e que não dá a mínima?

Na segunda parte da reportagem ele fala que mesmo bebendo e dirigindo, não tem a intenção de matar alguém. É isso, então: intenção, assumir o erro. Parece que o foco não está no que se faz, mas no que se fala do que se faz.

É aí que fica o problema, em sua sutileza.

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[1]: é igual àquelas pessoas, às vezes, que pegam um microfone pra "mandar a real" pra uma plateia e você tem a impressão de que eles precisam falar pra uma plateia, com microfone, pra escutar o que dizem.