Dizer pra você ser você mesmo é, no mínimo, infrutífero. Você já é a si mesmo. Você não pode deixar de ser a si mesmo. E assim, sendo a si mesmo não ajudou muito até agora na sua situação. Muito provavelmente, é justamente pelo fato de você ter sido você mesmo que você está onde está agora. Outra pessoa estaria em outro lugar, de outra forma.
Numa acepção menos radical, mais simbólica, "ser você mesmo" equivale a dizer, com poucas palavras, "seguir os seus próprios referenciais". Mas não diz: ser você mesmo é seguir os seus referenciais, mas seguir os referenciais não é ser a si mesmo. Ainda assim, isso supõe que os referenciais, assim como a sua identidade, sejam estáticos, imutáveis.
Se alguém não está sendo a si mesmo(a), quem ele(a) está sendo?
"Uma propaganda enganosa, uma falsidade, um embuste. Tudo menos ela mesma."
Numa das aulas da faculdade, há muito tempo atrás, quando o professor falou de uma aceitação incondicional, um dos princípios de uma determinada linha teórica na Psicologia, eu perguntei:
E, de certo modo, você, em toda a sua falsidade e enganação, nunca vai escapar de ser a si mesmo.
Há muito mais nuanças em todas as pessoas do que a norma costuma ver. O bajulador e o honesto muitas vezes são chamados pelo mesmo nome. Muitas vezes o cidadão de bem e o sádico ocupam turnos dentro de um corpo, o agressor doméstico e o bom profissional se revezam. Não adianta dizer que apenas um lado existe: não somos unidimensionais.
E qual a alternativa, então?
Numa acepção menos radical, mais simbólica, "ser você mesmo" equivale a dizer, com poucas palavras, "seguir os seus próprios referenciais". Mas não diz: ser você mesmo é seguir os seus referenciais, mas seguir os referenciais não é ser a si mesmo. Ainda assim, isso supõe que os referenciais, assim como a sua identidade, sejam estáticos, imutáveis.
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"Uma propaganda enganosa, uma falsidade, um embuste. Tudo menos ela mesma."
E eu digo: sim, mas o embuste não existe? Tanto quanto uma verdade. Uma pessoa falsa, recalcada é justamente isso. Quem disse que falsidade não existe no mesmo nível que a verdade acidentalmente alguma coisa aí. Essa simplificação de verdade faz exatamente isso que eu fiz na sentença anterior: suprime, sopesa, altera, elimina um termo essencial para a compreensão.
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Numa das aulas da faculdade, há muito tempo atrás, quando o professor falou de uma aceitação incondicional, um dos princípios de uma determinada linha teórica na Psicologia, eu perguntei:
- Mas e se, por acaso, a pessoa vier até o seu consultório pra ficar mentindo descaradamente, o que é que eu faço? Como é que pode haver terapia, se nada que ela diz corresponde aos dados da realidade dela?
- Ora - respondeu o professor - você vai escutar ela mentindo do mesmo jeito que vai escutar ela falando a verdade. O importante não é saber se ela está falando a verdade ou não, o importante é que a mentira é a mentira dela. (1)
E, de certo modo, você, em toda a sua falsidade e enganação, nunca vai escapar de ser a si mesmo.
Há muito mais nuanças em todas as pessoas do que a norma costuma ver. O bajulador e o honesto muitas vezes são chamados pelo mesmo nome. Muitas vezes o cidadão de bem e o sádico ocupam turnos dentro de um corpo, o agressor doméstico e o bom profissional se revezam. Não adianta dizer que apenas um lado existe: não somos unidimensionais.
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Não diga nada. Ou diga, se for pra dizer, diga o seguinte: seja o que você já é. Talvez isso não seja o que ela queira ouvir, mas não é menos verdade.
1: Evidente que esta conversa não se deu ipsis litteris; o autor - no caso, eu - tentou preservar o máximo de sentido, mas não garante que os dados da realidade correspondam ao da letra.

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