Há uma noção de real: um mundo à porta do observador, um
lugar onde não podemos alcançar. Um mundo sem linguagem, sem cultura. Um mundo
onde o absurdo não é nem ao menos absurdo. Não havia pensamento – o pensamento só
pode ser proposto num lugar onde haja linguagem. Um mundo onde não estamos lá.
Há, então, o Eu nesse mundo. Nos constituímos a partir da
nossa interação com o meio – há os nossos aparelhos de sensopercepção, nossos
processos de captação e decodificação da realidade. Há a memória e a cognição.
Há a capacidade de fabricar instrumentos e de utilizá-los, de guardá-los.
Depois há a capacidade de transmitir essa fabricação de instrumentos.
A mente é o lugar onde nós criamos outros instrumentos, de
segunda ordem. É a instância que talha uma ponta-de-lança que não é feita de
nenhum material específico. Que transforma uma pedra num instrumento de contusão.
Só que ainda não houve pedra e não houve lança.
Esses instrumentos são utilíssimos. Mas eles não podem ser
utilizados contra o que é real. Para o real é necessário pedras e lanças mais
sólidas.
Há a linguagem. Ela não está aqui nem ali. Ela é o inverso do real. Se o real é tudo, a
linguagem é incompleta; se o real nos escapa, a linguagem diz aquilo que pode
ser dito.
E o “nos”, de “nos escapa”, também não é do real. Toda
consciência deriva de linguagem. Anote isso.
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