Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu.
Já não caibo mais em mim.
Sinto um turbilhão de coisas, e sou tão complexo, meu Deus,
Que tenho saudades de alguma coisa que não vivi ou não ousava viver. Sei lá.
Tenho saudades de mim mesmo e outras figuras terríveis de linguagem.
Sou eu quem faço os poemas que não são para ninguém.
Se a pena e o verso são instrumentos de escultura,
Quero dar a mim - ai de mim! - o meu melhor espelho.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Sobre a palmada.
se o problema não está nele, a solução também não está.
Por um lado, existem os pais que dizem "não, eu nunca machuquei meus filhos, uma palmadinha de vez em quando não machuca ninguém", enquanto os filhos não podem dizer nada sobre o assunto enquanto crescem. Por outro lado, se os pais não podem dar a palmada, quem é que vai dar? Como o Estado vai regular os pais, em sua maneira de regular os filhos? Até onde é possível ir? Qual é a tal da diferença entre palmadinha e castigo físico, se são dois comportamentos de bater na criança (ou aplicar correção, ou qualquer outra suavização de palavras que se preferir)? Como que se pode fazer o que a palmada fazia sem as complicações que ela causa?
Uma palmada é uma maneira rápida, quase instantânea, e eficiente de corrigir um comportamento errado. Mas ela tem uma série de características adversas:
- não age nas causas do problema, apenas em sua manifestação final (não acaba com a vontade de "se danar", por exemplo);
- centra no indivíduo infrator todo o problema, minimizando o ambiente (o menino que quer meter o dedo na tomada, por exemplo, pode achar que a sua curiosidade é um problema - enquanto a tomada está ali);
- não funciona a longo prazo, o que atesta a incrível capacidade de adaptação do ser humano (que se acostuma igualmente com o que é prazeroso e o que é repulsivo);
- distancia quem levou de quem aplicou (ou seja: não existe essa história de "reconhece por que apanhou", num nível mais profundo - a pessoa pode até saber, na sua cabeça, que errou, mas isso não tem nada a ver com dor que ela sente; dor é dor - naturalmente, quem é responsável por aplicar-lhe essa dor não vai se tornar uma companhia muito agradável);
- acaba suprimindo outros comportamentos que não têm a ver com a história (quem apanhou por desenhar na parede pode acabar sentindo medo de desenhar no papel em branco, por exemplo). Isso leva à rigidez, estereotipação e, o que é um problema seríssimo, medo de criar soluções novas, já que
- (essa eu deixei por último, e é a mais importante) a palmada não ensina o correto, apenas elimina o errado.
Neste sentido, é interessante notar que a interdição da palmada realizada pela a própria Lei da Palmada (como está sendo
reconhecida a mudança no ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente) efetua, em função, a mesma coisa que ela proíbe. A Lei veta o castigo físico em crianças e adolescentes, dado por quem quer que seja, mas não ensina a diferença entre castigo físico e educação. Ela procura homogenizar as formas de educar em casa. Nem mesmo cita a forma adequada de se criar, apenas dá as diretrizes gerais (liberdade, respeito, dignidade, direito de ir e vir, etc.) e atribui aos responsáveis a forma de garantir essas diretrizes.
Isso, por si, já seria algo significativo se a lei se cumprisse por si só: mesmo que o Estado manifeste a sua intenção de penetrar no círculo familiar mais íntimo, mais nuclear de seus componentes, a fim de lhes ajudar a criar seus sucessores, como ele iria fazer isso? Que lei pode atingir, regulamentar um ambiente que não é coletivo, mas particular?
A mudança, enfim, acaba se tornando mais um exemplo que atesta a posição do Brasil como um pais autossuficiente não em petróleo, mas em leis descontextualizadas: possui uma legislação moderníssima em algumas áreas e, no entanto, não percebe que leis não se aplicam a si mesmas caso sejam construídas apenas por propósitos, intenções muito justas e verdadeiras - que, no entanto, não dizem respeito à realidade social, a fundo. Não é na intenção da mudança do ECA que houve a discordância; a intenção é boa, é a de coibir casos e práticas abusivas que acontecem, e que são, como as piores práticas abusivas, invisíveis. O problema é que intenção e o que se dá na realidade não são, assim análogos. Os próprios pais que batem, agridem, machucam os seus filhos, além da conta (mas que conta?), que o digam: tudo aquilo que eles fazem, a que se sujeitam - pois também é ruim pra eles -, é pelo bem.
Ora, se é para o bem não se sabe, mas o que a experiência atesta que não existe uma espécie de não-palmada nesse mundo: se não quebra dum lado, quebra do outro. Onde, num mundo, existe mais de um sujeito, vai dar nisso: só temos à disposição um mundo só, e um mundo só é pouco para mais de uma pessoa que acha que ela em si é todo o mundo. Faz parte do processo de individuação de um sujeito, de seu crescimento pessoal, compreender isto - e é difícil. É ruim. Não poderia ser de outra forma: qualquer coisa que venha a nos dizer que não, que nós não somos a última Coca-Cola do deserto com gelo, limão e canudinho e que, além do mais, que o deserto está cheio, apinhado, de diferentes Cocas e refrigerantes, todos refrescantes à sua própria maneira, não seria lá muito fácil de entender. Mas não tem outro jeito.
Isso, por si, já seria algo significativo se a lei se cumprisse por si só: mesmo que o Estado manifeste a sua intenção de penetrar no círculo familiar mais íntimo, mais nuclear de seus componentes, a fim de lhes ajudar a criar seus sucessores, como ele iria fazer isso? Que lei pode atingir, regulamentar um ambiente que não é coletivo, mas particular?
A mudança, enfim, acaba se tornando mais um exemplo que atesta a posição do Brasil como um pais autossuficiente não em petróleo, mas em leis descontextualizadas: possui uma legislação moderníssima em algumas áreas e, no entanto, não percebe que leis não se aplicam a si mesmas caso sejam construídas apenas por propósitos, intenções muito justas e verdadeiras - que, no entanto, não dizem respeito à realidade social, a fundo. Não é na intenção da mudança do ECA que houve a discordância; a intenção é boa, é a de coibir casos e práticas abusivas que acontecem, e que são, como as piores práticas abusivas, invisíveis. O problema é que intenção e o que se dá na realidade não são, assim análogos. Os próprios pais que batem, agridem, machucam os seus filhos, além da conta (mas que conta?), que o digam: tudo aquilo que eles fazem, a que se sujeitam - pois também é ruim pra eles -, é pelo bem.
Ora, se é para o bem não se sabe, mas o que a experiência atesta que não existe uma espécie de não-palmada nesse mundo: se não quebra dum lado, quebra do outro. Onde, num mundo, existe mais de um sujeito, vai dar nisso: só temos à disposição um mundo só, e um mundo só é pouco para mais de uma pessoa que acha que ela em si é todo o mundo. Faz parte do processo de individuação de um sujeito, de seu crescimento pessoal, compreender isto - e é difícil. É ruim. Não poderia ser de outra forma: qualquer coisa que venha a nos dizer que não, que nós não somos a última Coca-Cola do deserto com gelo, limão e canudinho e que, além do mais, que o deserto está cheio, apinhado, de diferentes Cocas e refrigerantes, todos refrescantes à sua própria maneira, não seria lá muito fácil de entender. Mas não tem outro jeito.
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Da necessidade de que assumam.
direto do manual de maneiras erradas de mostrar que é independente
O rapaz bebe sua cerveja e resolveu falar à repórter. O resultado acaba sendo mais rico em significações que sonho de véspera.
Vem comigo: qual é mesmo o fato especial, o que dá sustentação a esse draminha virar notícia? Dou-lhe uma, dou-lhe duas...
...ah, ele assumiu. Assumiu que vai desrespeitar a lei. Não que ele dirigiu embriagado, mas que disse que iria dirigir embriagado, sem problema. Em frente das câmeras. Em frente de todo mundo. E não ficou mal por causa disso.
Não vamos seguir o mesmo caminho já seguido pela tevê. Não precisamos de redundância: o flagrante, a violação, o deboche, não vão ser o principal aqui. Todas estas coisas, francamente, servem pra mostrar não só que esse rapaz aí reconhece a lei como o seu desrespeito a ela atende a um propósito específico. Qual que seja, ele pertence somente ao rapaz, e, por mais que ele queira admitir alguma coisa na frente de todo mundo, é alguma coisa para ele [1]. Claro que isso também não exime ele de ter de saber, como todos nós, a diferença entre a calçada e o quintal.
O que nos leva de volta à questão do início: no momento da reportagem, ele não estava dirigindo, ainda, apenas manifestando intenção de dirigir. Por aí já se pode argumentar que a chamada da reportagem era exagerada, afinal ele não estava desrespeitando a lei, naquele momento (oras, dizer que vai matar já é alguma coisa, mas ainda não é matar). Mas aí também, por outro lado, a reportagem pode ter visto ele saindo e não colocaram na edição final. De todo modo, boa parte das chances é de que ele tenha mesmo saído embriagado, realmente colocando gente que não tem nada a ver potencialmente em perigo.
Aí tem o outro lado: muito provavelmente ninguém denunciou. A reportagem veio, filmou e foi embora (ou quem sabe, ficou pra tomar umas). É bem provável, também, que ele não tenha sido o único daquele recinto a beber e sair dali dirigindo. Aliás, boas chances de que ele tenha sido parte da maioria. Imagine você, se você fosse ligar pro órgão de trânsito da sua cidade, se todo mundo fosse ligar quando acontecesse coisa desse nível pra fazer uma denúncia dessas:
- Moço, tem um rapaz aqui que bebeu e vai dirigir!
- É? Pois segura ele aí que tem uns quarenta na frente dele, além de dois acidentes graves e um atropelamento ali na Curva da Viúva.
É preciso levar muita coisa em conta por detrás dessas questões, e aí que se vê que o abaixo-assinado proposto não vai dar certo, mesmo que dê: afinal, quem é que vai fiscalizar isso? E, mesmo que fiscalize, quem vai ser o fiscal que vai acabar com o ímpeto de beber, de dirigir, de correr, de confrontar, mostrar aos outros que pode, e que não dá a mínima?
Na segunda parte da reportagem ele fala que mesmo bebendo e dirigindo, não tem a intenção de matar alguém. É isso, então: intenção, assumir o erro. Parece que o foco não está no que se faz, mas no que se fala do que se faz.
É aí que fica o problema, em sua sutileza.
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[1]: é igual àquelas pessoas, às vezes, que pegam um microfone pra "mandar a real" pra uma plateia e você tem a impressão de que eles precisam falar pra uma plateia, com microfone, pra escutar o que dizem.
domingo, 6 de novembro de 2011
Os sussurros do outro lado.
A morte não é um lugar.
A morte não é um destino.
A morte é tão somente a morte.
Se os pássaros e as borboletas.
Entendem muito mais de morte que todos nós
É precisamente porque não colocam-lhe um entorno de palavras
E não lhe põem mistério.
Mesmo quando estamos a falar de morte
Estamos a falar mesmo de alguma coisa que não seja morte.
Tudo o que nós dizemos dela
Não lhe pertence, de fato.
Não há nenhuma oposição verdadeira entre a vida e a morte
Que não seja causada pela vida,
Pois a morte não fala.
Nós, somente nós, é que discordamos dela
E ainda assim a morte não nos contraria.
A morte não é um destino.
A morte é tão somente a morte.
Se os pássaros e as borboletas.
Entendem muito mais de morte que todos nós
É precisamente porque não colocam-lhe um entorno de palavras
E não lhe põem mistério.
Mesmo quando estamos a falar de morte
Estamos a falar mesmo de alguma coisa que não seja morte.
Tudo o que nós dizemos dela
Não lhe pertence, de fato.
Não há nenhuma oposição verdadeira entre a vida e a morte
Que não seja causada pela vida,
Pois a morte não fala.
Nós, somente nós, é que discordamos dela
E ainda assim a morte não nos contraria.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Mulherzice.
- Vamos brincar de namorado?, perguntou o meninozinho.
- Vamos.
Pronto. Agora eram namorados.
- E agora, o que é que a gente faz?
- Não sei, tu é que tem que saber.
Ela demonstrava um certo aborrecimento por ele ter perguntado.
- Eu sei não.
- Tem que saber.
Ela parecia distante. Ele franziu a testa, naquele momento.
- Pois então vamos tomar sorvete.
- Não.
- Vamos.
Pronto. Agora eram namorados.
- E agora, o que é que a gente faz?
- Não sei, tu é que tem que saber.
Ela demonstrava um certo aborrecimento por ele ter perguntado.
- Eu sei não.
- Tem que saber.
Ela parecia distante. Ele franziu a testa, naquele momento.
- Pois então vamos tomar sorvete.
- Não.
domingo, 30 de outubro de 2011
O sonho do afogamento.
Ela, no sono, à deriva
em águas revoltas, profundas,
aspergindo
estrelas, e o gosto salgado
do mar enquanto que o chão
inteiro escapa aos seus pés e sobra, de lastro,
o rastro que sobe,
o clarão.
em águas revoltas, profundas,
aspergindo
estrelas, e o gosto salgado
do mar enquanto que o chão
inteiro escapa aos seus pés e sobra, de lastro,
o rastro que sobe,
o clarão.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
A história da mulher do sapo e os espelhos.

está vendo ele falar da sua natureza?
O escorpião aproximou-se do sapo que estava à beira do rio. Como não sabia nadar, pediu uma carona para chegar à outra margem.
Desconfiado, o sapo respondeu: "Ora, escorpião, só se eu fosse tolo demais! Você é traiçoeiro, vai me picar, soltar o seu veneno e eu vou morrer."
Mesmo assim o escorpião insistiu, com o argumento lógico de que se picasse o sapo ambos morreriam. Com promessa de que poderia ficar tranquilo, o sapo cedeu, acomodou o escorpião em suas costas e começou a nadar.
Ao fim da travessia, o escorpião cravou o seu ferrão mortal no sapo e saltou ileso em terra firme.
Atingido pelo veneno e já começando a afundar, o sapo desesperado quis saber o porquê de tamanha crueldade. E o escorpião respondeu friamente:
- Porque essa é a minha natureza![1]
Pobre do sapo. Eu é que chamo d'"A história da mulher do sapo", já que, claramente, assumindo que o sapo seja heterossexual e casado, é esse o ponto de vista da história. Se não é do o cônjuge, ao menos dos amigos do sapo, aquele agrupamento de bichos que sobreviveram a ele e lhe tinham em boa simpatia.
Já viu antes? Muito costumeiramente este texto é dito - se não, ao menos encenado fora dos teatros. O que acontece nele é quase como um assalto: ou já ocorreu com você ou já ocorreu com alguém conhece - ou, ainda assim, seria muito fácil de acontecer, não é? Pois é, a comparação não foi à toa.
Costuma-se utilizar-se dos mesmos caminhos para embasar um assalto e uma passada de perna. É para isto que servem as fábulas, como gêneros literários (o que se estende à literatura como um todo), para transmitir, colocar, repassar experiência passível humana. Você pode escrever alguma coisa que seja fictícia, que não tenha realmente acontecido, algo que, em certa medida, não exista; no entanto, é impossível você escrever algo que nunca pudesse ser imaginado, algo que nunca pudesse existir, algo que nunca pudesse ser inventado. Se você inventar uma palavra, atribuir-lhe a uma palavra antes inexistente um significado particular (inventei agora: schekst), ainda assim, por trás dela haveria todo um contexto, um pano de fundo anterior (mesmo que um pano de fundo transparente).
É por isto que as fábulas são tão fáceis de serem entendidas. São animais falantes, claro. Mas nos quais são impingidas características intrínsecas de quem escreveu e de quem vai ler. Embora esses animais falantes não existam, você, leitor, conseguiria imaginar um porco, uma vaca, um leão, uma raposa, existentes, não-falantes, e a eles adicionar uma voz, uma voz que não é originalmente deles, uma voz humana. Aí que está todo o segredo da ficção. Toda fábula (e, por extensão, tudo o que nós escrevemos), acima de tudo, é um espelho. E todo espelho é alguma coisa que não é a gente, mas que, olha só que coisa, aparece a gente nele. Nós falamos sobre os animais, dos animais, mas não podemos falar aos animais. Nem que a gente tentasse muito. Eles não entenderiam.[2]
É precisamente aí que, embora seja de utilidade para veicular valores e normas de conduta pra crianças, a fábula é um pouco falha: não estamos falando do sapo ou do escorpião, em hipótese alguma. Quem acha que o sapo é um pobre coitado que pergunte às moscas.
Nisto constitui a nossa especificidade: já que não podemos falar aos animais sobre a sua chamada natureza intrínseca, nós os utilizamos (e qualquer semelhança com o real é mera coincidência) para falar a nós mesmos sobre alguma coisa chamada natureza intrínseca.
Quer dizer, o pensamento que vem é: diabos, não podemos nem utilizar a nós mesmos para dar o exemplo!? E a resposta é: não, nunca. Podemos até imaginar o outro como ele nos vê, mas bom mesmo seria nos vermos com os próprios olhos - sem precisar de espelho nenhum.
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[1]: Retirada, na íntegra, da obra "Mentes perigosas", de Ana Beatriz Barbosa Silva. É bem alarmante o fato de que este livro já integrou diversas listas de mais vendidos no país - já que é um cabedal de horrores em abordagem aos transtornos dissociais[a]. Sua autora ainda trabalhou como consultora da Globo, na novela "Caminho das Índias".
[2]: Acredite, já tentei com o gato aqui de casa; às vezes ele escuta, atentamente, mas não se incomoda.
[a]: Dá pra saber a que o livro se propõe na dedicatória: "A todas as pessoas 'de bem' que acreditam e lutam por um mundo menos violento e mais justo". Como se houvesse uma divisão nítida, embasada, fora das ficções, entre quem é totalmente "de bem" e quem só quer ver o mar pegar fogo, não para comer peixe frito, mas pela maldade mesmo.
Entrando em terreno espinhoso: se você for ver, toda classificação de uma psicopatologia se estrutura a partir de um tabu, de um ponto obscuro dentro de nossa sociedade. Em termos leigos: só é doença quando incomoda, e de uma certa forma. É por isto que, por exemplo, não há nada específico dentro das referências na área para a pessoa que tem compulsão por trabalho ou simplesmente tem o sentimento constante de uma vida vazia, oca, podre por dentro; só se diagnostica a condição psicopatológica a partir de quando estes sintomas (que muitas vezes só são tratados como tal posteriormente) atrapalham a produtividade e o relacionamento da pessoa de forma significativa - ou seja, quando é óbvio para outras pessoas.
A verdade constrangedora dessa ciência é que ela não consegue prever adequadamente se o assassino é psicopata antes de ele cometer o crime, só depois; e aí, ele sempre foi psicopata e o crime não pode ser desfeito.
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[1]: Retirada, na íntegra, da obra "Mentes perigosas", de Ana Beatriz Barbosa Silva. É bem alarmante o fato de que este livro já integrou diversas listas de mais vendidos no país - já que é um cabedal de horrores em abordagem aos transtornos dissociais[a]. Sua autora ainda trabalhou como consultora da Globo, na novela "Caminho das Índias".
[2]: Acredite, já tentei com o gato aqui de casa; às vezes ele escuta, atentamente, mas não se incomoda.
[a]: Dá pra saber a que o livro se propõe na dedicatória: "A todas as pessoas 'de bem' que acreditam e lutam por um mundo menos violento e mais justo". Como se houvesse uma divisão nítida, embasada, fora das ficções, entre quem é totalmente "de bem" e quem só quer ver o mar pegar fogo, não para comer peixe frito, mas pela maldade mesmo.
Entrando em terreno espinhoso: se você for ver, toda classificação de uma psicopatologia se estrutura a partir de um tabu, de um ponto obscuro dentro de nossa sociedade. Em termos leigos: só é doença quando incomoda, e de uma certa forma. É por isto que, por exemplo, não há nada específico dentro das referências na área para a pessoa que tem compulsão por trabalho ou simplesmente tem o sentimento constante de uma vida vazia, oca, podre por dentro; só se diagnostica a condição psicopatológica a partir de quando estes sintomas (que muitas vezes só são tratados como tal posteriormente) atrapalham a produtividade e o relacionamento da pessoa de forma significativa - ou seja, quando é óbvio para outras pessoas.
A verdade constrangedora dessa ciência é que ela não consegue prever adequadamente se o assassino é psicopata antes de ele cometer o crime, só depois; e aí, ele sempre foi psicopata e o crime não pode ser desfeito.
sábado, 24 de setembro de 2011
domingo, 18 de setembro de 2011
Nada existe.
Conta a história, o koan, do aluno que visitou o mestre, procurando mostrar sua dedicação e todo o seu entendimento sobre o caminho que percorria. Chegou até ele e disse:
"A mente, Buda, e a consciência, no final das contas, não existem. A natureza última dos fenômenos é um vazio. Não há entendimento pleno, não há enganação, não há sapiência nem mediocridade. Não há nenhuma oferenda a dar nem nada a ser recebido."
O mestre, que estava fumando seu cigarrinho na tranquilidade, não disse palavra. Deu-lhe com a vara de bambu na testa. Isso deixou o aluno, no mínimo, desconcertado.
"Se nada existe", perguntou o mestre, "de onde veio essa perplexidade?"
sábado, 3 de setembro de 2011
Ela dorme.
Entre os juncos de bambu, as sombras e a brisa da lagoa imaginária, ela dorme.
O gato ressonando, contente, nos pés, compartilhando o mesmo lote de sonho.
Meninas brincando no pátio, longe, estão dando cor ao sol.
O gato ressonando, contente, nos pés, compartilhando o mesmo lote de sonho.
Meninas brincando no pátio, longe, estão dando cor ao sol.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
O futuro interminável
animais parecidos com os humanos
Há um certo consenso que a capacidade de criar signos é a invenção mais genial da humanidade. Eu não sei, mas acho que é quase lá. Tudo bem que só o fato de criar signos me dá esses luxos - diga-se, o de não entender e o de discordar -, mas o que é genial mesmo é o fato de se ter filas neste mundo. Outros animais, cupins, formigas, muito menores e, ao que parece, menos espertos[1], já se organizam de maneira semelhante. Mas não reclamam na fila, apenas correm para lá e para cá, carregando seus torrõezinhos de terra, acumulando anos de interação constante, deriva natural e aprendizado.
George Orwell é que dizia que, se se quer ter uma imagem do futuro, é só imaginar uma bota prensando um rosto humano para sempre. Eu não digo tanto; para mim, o futuro é uma fila de banco, longa, interminável. Menos violência real, mais violência simbólica. Se você for parar pra observar (e é isso que mata uma pessoa nesse mundo, parar pra observar - e toda essa falta de observação é talvez o que nos põe em filas), toda fila evidencia os dois lados de sua necessidade e justificativa - o lado das pessoas que se submetem e lado das que põem à prova tudo isso.
Ninguém escapa ileso duma boa fila. Uma boa fila é como uma síntese bem contada da humanidade. Pode-se exercer toda uma tipologia de sujeitos que praticam fila:
Há os que reclamam da fila, que dizem que meu deus do céu, isso é uma imoralidade, uma fila grande desse jeito, onde já se viu, até que chega a sua vez, aí eles param de reclamar.
Há os que cedem o lugar por conta própria, mas isso é raríssimo.
Há os que estão dentro da fila e furam, afinal de contas, vagou faz é tempo (10 segundos) e a pessoa da frente não se mexe, é lesa, até merece, e além do mais eu estou com pressa e minha necessidade é importantíssima, vamo adiantando aí né minha filha.
Há os que observam tudo isso e se omitem, não se sabe o porquê.
Há os que estão numa fila pensando na próxima fila. Talvez nem entendam.
Há aqueles que furam e se fazem de desentendidos, como quem diz, hã, e a fila é desse tamanho? pensava que acabava aqui, onde não é nem a metade.
Há os realmente desentendidos, que morrem de constrangimento.
Há os que pegam a fila toda pra aprender, no final, que a fila era errada, que era aquela outra, ou então que pra isso nem precisava de fila.
Há os que até podiam ter perguntado, mas decidiram que perguntar, numa fila daquelas, num espaço daqueles, era algo pior do que pegar uma fila.
Há até os que gostam de pegar uma fila!
Os ramos tradicionais do conhecimento reconhecem a posição do ser humano, fora do exclusivamente fisiológico, como sujeito, apenas quando este se insere no meio social. De início, alguém afirma que aquele é um homem para que, depois, aquele homem possa dizer de si mesmo "eu sou um homem e aqui estão outros homens". Pra fora com essas visões antiquadas! - é muito mais embaixo: o homem, o sujeito, o que ele quiser dizer de si mesmo que seja pretensamente além dos cupins trabalhadores, é todo aquele que pega uma boa fila.
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[1]: "Que
o homem é a mais nobre das criaturas pode ser inferido do fato de que
nenhuma outra jamais contestou essa pretensão." - G.C. Lichtenberg.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
A filosofia do empurrão
A moça parecia que tinha que voltar para casa o quanto antes, o mais rapidamente possível, e aquele ônibus lotado no horário de pico estava especialmente incumbido de demovê-la desse propósito. No caminho, esbarrou nas pessoas para passar à frente, deu uma pequena braçada até o lugar depois de mim e estancou lá. Pensei em pedir meu ombro de volta, que ela intencionou levar consigo e talvez tenha esquecido que era de outra pessoa, mas aí calei. Isto tudo teve a duração de um choque, de um empurrão. Não estava em lugar algum, mais.
Todo tipo de pressa tem sempre um quê de um levante impotente, inócuo. As teorias (e a experiência) afirmam que o tempo, como nos é dado, é psicológico - que ele se desprende e que se espalha. Contudo, nós só dizemos isso sobre o tempo porque ele, em si, não pode dizer nada. O tempo se parece mais com um problema insolucionável, e nós que trocamos as pernas pelas mãos para mexer nele. Quem colocou a questão de forma genialmente simples foi Heráclito, dizendo que o mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque o homem de antes não é o mesmo homem de agora, nem o rio de antes é o mesmo do rio que está - como dizer? - acontecendo. Há, em algum ponto, uma diferença essencial, que nós faz perceber que houve alguma coisa, que está havendo, e que, por suposto, haverá. Tudo isto se entrelaçando continuamente; tudo muda, e tudo tem um mesmo.
Há a mulher, já em algum outro lugar. Há o empurrão. Há o rio. Há o ônibus, há o meio da rua; tudo isto ficou para trás. Há um certo retorno a algum lugar que não entendemos direito, não podemos entender. E talvez seja por isso mesmo que nos dispomos tanto a falar do tempo: não temos escolha, não podemos estar lá. Apesar de todo o discurso de Heráclito, do rio e do tempo, bem como as suas variações, apreender a coisa de forma direta, o problema é que ele não comporta mais de um homem, nem mais de um rio. Homem e rio são duas categorias diversas, separadas, interdependentes. Nem tanto antes e depois: outra coisa.
O que é mais próximo do que temos aqui, no ônibus, horário de pico, ou em qualquer algum lugar, é que são catorze (são infinitos) os homens e catorze (infinitos) os rios.
Concebi, instantaneamente no instante do empurrão
e algum tempo depois, uma suposição sobre o tipo de pressa daquela moça. É o que tento fazer agora, com a escrita: estender artificialmente aquele empurrão. Não remetia a algum tipo de pressa especial, de
felicidade ou arrependimento, ou ansiedade, não parecia vir de
excitação. Foi um empurrão por demais longo, se você pegar os relógios
dos dias de hoje e contar o tempo, e por demais fraco, se for pegar o
afeto.
Há a mulher, já em algum outro lugar. Há o empurrão. Há o rio. Há o ônibus, há o meio da rua; tudo isto ficou para trás. Há um certo retorno a algum lugar que não entendemos direito, não podemos entender. E talvez seja por isso mesmo que nos dispomos tanto a falar do tempo: não temos escolha, não podemos estar lá. Apesar de todo o discurso de Heráclito, do rio e do tempo, bem como as suas variações, apreender a coisa de forma direta, o problema é que ele não comporta mais de um homem, nem mais de um rio. Homem e rio são duas categorias diversas, separadas, interdependentes. Nem tanto antes e depois: outra coisa.
O que é mais próximo do que temos aqui, no ônibus, horário de pico, ou em qualquer algum lugar, é que são catorze (são infinitos) os homens e catorze (infinitos) os rios.
Eu tenho vontade de perguntar, minha senhora, qual é a sua pressa? Tem pressa de viver, pressa de chegar na sua casa, de tirar os sapatos, de lavar o rosto, reencontrar os filhos, o abraço do marido, pressa de esquentar a janta, colocar a ração do gato, pressa de mandar esse mundo aí à merda e de se encerrar num cobertor? Pressa de sentir, finalmente, no resto do dia que lhe cabe, finalmente alguma coisa? Pressa de dormir assistindo tevê? De acordar amanhã e ter pressa? Você sabe, realmente, do que tem pressa? Poderia dizê-lo, pra mim, sem que o olhar a traia? Sua pressa é muito confusa e eu não lhe entendo.
domingo, 21 de agosto de 2011
Dos propósitos insidiosos
imprático, na realidade
Desde os tempos do jornalismo que eu vejo as pessoas falando mal de grandes revistas, que não leem, que chega a dar é nojo de como o ranço conservador não declarado é forte, etc e tal. Tá certo - a primeira coisa que você pode fazer no jornalismo é dizer que é imparcial: se você é alguma coisa que não o fato em si, você já não pode assumir nenhuma alcunha que subentenda isso. Mas todo jornalista que não entrou na faculdade sabendo disso passou, no máximo, dois semestres na faculdade entranhando isso. É coisa batida.
O que alguns meios de comunicação fazem é muito mais insidioso do que o discurso, justamente porque é feito de forma magistral.
Está vendo a família da foto de cima? É de uma matéria de comportamento, recente. Vamos observá-la mais de perto. Há quatro pessoas na foto - subentende-se que é um núcleo familiar. Um homem, mais velho, ao centro, ladeado por três pessoas mais jovens, aparentemente, brincando na hora de ajudar o senhor a fazer a barba e pentear os cabelos.
Pare um pouquinho. Não é de se estranhar? Já viu coisa parecida? Na realidade, quero dizer, não numa revista? É muito complicado, se assear desse jeito.
Tudo, absolutamente tudo, nesta foto, é planejado, por uma equipe multiprofissional. Diabos, imagine aí um jornalista entrando na sua casa, com um fotógrafo, bate um papo de 15 minutos com você, depois vão todo mundo pro banheiro, fazer uma foto, bota o roupão, passa espuma na cara, ótimo, agora vamos na sala, maravilha, mais duas na varanda, ficou show.
Veja aí o roupão japonês do papai, as paredes do banheiro, as roupas dos filhos, a espuma de barbear espalhada pelo rosto, a caçula imitando, a pose, os sorrisos. A filha mais velha (eu li a matéria - poderia se assumir que era uma esposa, não?) não encosta o pente no cabelo dele, pra não pentear demais. O secador tem que aparecer. O filho tem um olhar de empolgação de quem foi pedido para segurar um barbeador rente ao rosto de alguém por mais tempo que o necessário (mais de nenhum). Veja aí se o sorriso e os olhos estão com o mesmo propósito. A única que se diverte é a caçulinha, porque, francamente, uma dessas não tá nem aí para essas coisas de imagem, ainda mais tendo a possibilidade de se sujar de espuma.
E isso porque ainda não falei da escolha das pessoas em si. Do tom da pele, da idade, da composição do núcleo familiar. De onde eles moram, quem são, o que pensam, o que fazem, o que consomem. A matéria é sobre os hábitos de filhos que se espelham nos pais - o que é um comportamento universal, em todas as configurações, enquanto que se admitem que ambos existam. Mas vá lá ver quais são as figuras predominantes. Vá ver se há uma visão confrontante do assunto.
se ele correr o menino cai para trás
Segundo exemplo. Você vê a família feliz de margarina e diz, muito inteligentemente: sou diferente deles. Isso aí não é uma família de verdade, é uma família de margarina. A propaganda de carro está querendo dizer, de alguma forma, que eu vou ser jovem, bonito, rico, bem sucedido e apessoado enquanto eu estiver dirigindo um desses. Eu, consumidor, já preso nessa lógica, não vou cair nisso, eu sei que tudo é um truque pra vender carro.
Não adianta, você já caiu no truque, muito antes; não no de que você vai ser rico, bonito, jovem e bem apessoado quando estiver num carro daqueles - esse é o truque inicial. Você, com toda a sua esperteza, nem percebeu que concorda com a propaganda de carro sobre o que é rico, o que é bonito e o que é jovem - que é tudo aquilo que ela está mostrando. Não importa a sua ideia própria do que seja beleza, família ou coisa do tipo. Há essa imagem aí, na sua cara, e não há espaço pra você, no dia-a-dia, se ater aos parâmetros menos superficiais dela.
É essa a finalidade principal, e é a mais bem-sucedida. O carro vem muito depois.
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Não, não são os dragões
não é culpa dele
Provou-se que a descrença num mundo virtual é exagerada, infundada e com base em argumentos rasteiros. Veja bem: não é que o seu elfo-da-noite-paladino-nível-85-com-montaria-épica se compare ao seu perfil com 400 amigos na rede social. Ou com o seu relacionamento com os colegas na empresa. Ou os valores introjetados pela sua cultura. Ou o seu ideal de homem/mulher/pessoa num relacionamento amoroso.
...na verdade, é bem isso mesmo, se for falar em sentido.
No jogo, seu elfo é um objeto. Ele é uma representação do jogador, não é o jogador. Os monstros que ele subjuga, as quests que ele termina, os pedaços de equipamento diligentemente coletados em torno do tempo de jogo, tudo isso são objetos. Tudo o que eu adquirir com o meu elfo, através do meu esforço, gastando as minhas horas, tudo isso não vai poder sair do computador. Tudo isso, aliás, nesses jogos, especificamente, não está nem mesmo no meu computador - está no servidor da empresa que oferece o jogo¹.
Por outro lado, não há combates reais; caso eu cometa um erro grosseiro (esqueça de apertar a tecla de soltar a magia de proteção antes de me lançar ao combate), meu elfo será estripado, morto, deixará o corpo sem vida no chão. Ao menos até que eu decida ressuscitar num cemitério próximo. Eu estarei aqui, ainda, como estive mesmo antes de bater as armas. Posso renegar tudo o que sei, posso aprender novas profissões, posso apagar meu personagem da minha conta e ainda estarei aqui, inteiro.
Nesse sentido é que tanto os jogos eletrônicos (neste caso, os RPGs de mundos online persistentes - MMORPGs - embora a acepção possa ser estendida de forma mais ampla) quanto as redes sociais dão forma a demandas, necessidades, aspirações que reverberam em todos nós, de alguma forma. É por isso que eles existem e fazem sucesso.
O danoso desses RPGs é o que possibilita que eles existam e sejam aproveitados - o mundo, dentro de um RPG eletrônico está pronto e acabado e o seu papel nele é preestabelecido: você não vai inventar nada, você é um convidado a passar por lá e jogar de acordo com as regras. E é nesse ponto que as críticas aos jogos eletrônicos em geral, aos RPGs, ao diabo, falham: esses mecanismos se estendem muito mais além. Imagina aí você ter um dia extremamente frustrante, cansativo, você ter de lidar com um monte de gente chata, apressada, frustrada, recalcada, vazia, que não vai a lugar algum, todas essas pessoas na mesma situação que você pegando o engarrafamento pra voltar pra casa. A lógica desses dias pruma praia de areia laranja em Azeroth é semelhante, os sentimentos são opostos.
O problema dessas coisas não é o escapismo. Desde que nós inventamos a nossa mente, por assim dizer, nós temos algum refúgio secreto que carregamos sempre conosco, dentro do crânio. O inquietante, o verdadeiramente pobre sobre essas formas de utilização de tempo é que elas são, funcionalmente, o mesmo que ficar se olhando no espelho. Dragões não têm nada a ver com isso. A diferença é imagética, o sentido é o mesmo.
Alguém que fica dedica muito tempo da sua vida, mais do que se julgue necessário, para upar um personagem num jogo, conseguir equipamentos épicos, não difere muito, em termos de significado, entre uma pessoa que passa o dia arrumando a página do seu perfil, mudando preferências, upando fotos ou simplesmente vagueando sem propósito. Ou de uma pessoa que não faz nada disso, mas compra um objeto de decoração pra colocar na casa, quase todo dia. Os perfis de personagens virtuais, junto com as salas de estar vazias e ainda assim atulhadas de objetos inanimados estão espalhadas por aí, pra falar toda a verdade sobre nós e o que nós fazemos.
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[1]: paralelos com o conceito de mais-valia são encorajados aqui.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Querida L.,
Lembro agora das flores do seu jardim, de como nós estávamos passando por entre as pequenas vielas inundadas por galhos e folhas verdes e uma população densa e variada de flores, das quais eu passo do lado como um tolo respeitoso. Lembro da tarefa que costuma ser incumbida aos jardins na literatura - a de ser um espaço alegórico pra lidar do único problema verdadeiros dos seres humanos, que é o tempo. Dois exemplos de cabeça que eu cito pra ilustrar é o lar de Destino, em Sandman, que é um labirinto de sebe que vai dar num grande (num infinito) jardim, e o Jardim dos caminhos que se bifurcam, de Borges, que contém nele uma multitude de possibilidades, infintas, talvez todas.
Poderíamos passar um dia todo por lá; não em Borges, que muitas vezes é um chato pedante, mas no seu jardim. Gosto de seu jardim, precisamente porque é pequeno. E isto não é fazer pouco; todos os jardins, na realidade, o são, quando você se vê dentro. Não deve ser à toa que o sonho e a literatura são os únicos lugares onde se pode encontrar jardins grandes, infinitos. Se eu estivesse num desses, acordado, não seria meu, seria de algo, de alguém. Um jardim grande, a se perder de vista já não é mais um jardim, é o mundo.
Todo jardim tem a impressão de guardar segredos sussurrados numa língua que não temos acesso, por um povo que aprendeu a morrer. Se você for pegar pra ver, um jardim pode ser um espaço de caminhos que se bifurcam, assim como uma planta cheia de galhos, um galho cheio de ramos menores, um ramo cheio de folhas, um folha que, se você olhar bem de perto, possui ranhuras bifurcadas, que reproduzem - ou seguem a mesma lógica - do desenho das folhas, dos ramos, dos galhos, das árvores e do jardim.
Estou aqui falando apenas de espaço e de mundo, de folhas e adubo e de objetos. Do quanto isso tudo parece pequeno. Perdoe o exagero, é que eu imagino essas coisas, andando com você pelo jardim.
Seu V.
Lembro agora das flores do seu jardim, de como nós estávamos passando por entre as pequenas vielas inundadas por galhos e folhas verdes e uma população densa e variada de flores, das quais eu passo do lado como um tolo respeitoso. Lembro da tarefa que costuma ser incumbida aos jardins na literatura - a de ser um espaço alegórico pra lidar do único problema verdadeiros dos seres humanos, que é o tempo. Dois exemplos de cabeça que eu cito pra ilustrar é o lar de Destino, em Sandman, que é um labirinto de sebe que vai dar num grande (num infinito) jardim, e o Jardim dos caminhos que se bifurcam, de Borges, que contém nele uma multitude de possibilidades, infintas, talvez todas.
Poderíamos passar um dia todo por lá; não em Borges, que muitas vezes é um chato pedante, mas no seu jardim. Gosto de seu jardim, precisamente porque é pequeno. E isto não é fazer pouco; todos os jardins, na realidade, o são, quando você se vê dentro. Não deve ser à toa que o sonho e a literatura são os únicos lugares onde se pode encontrar jardins grandes, infinitos. Se eu estivesse num desses, acordado, não seria meu, seria de algo, de alguém. Um jardim grande, a se perder de vista já não é mais um jardim, é o mundo.
Todo jardim tem a impressão de guardar segredos sussurrados numa língua que não temos acesso, por um povo que aprendeu a morrer. Se você for pegar pra ver, um jardim pode ser um espaço de caminhos que se bifurcam, assim como uma planta cheia de galhos, um galho cheio de ramos menores, um ramo cheio de folhas, um folha que, se você olhar bem de perto, possui ranhuras bifurcadas, que reproduzem - ou seguem a mesma lógica - do desenho das folhas, dos ramos, dos galhos, das árvores e do jardim.
Estou aqui falando apenas de espaço e de mundo, de folhas e adubo e de objetos. Do quanto isso tudo parece pequeno. Perdoe o exagero, é que eu imagino essas coisas, andando com você pelo jardim.
Seu V.
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