segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Querida L.,

Lembro agora das flores do seu jardim, de como nós estávamos passando por entre as pequenas vielas inundadas por galhos e folhas verdes e uma população densa e variada de flores, das quais eu passo do lado como um tolo respeitoso. Lembro da tarefa que costuma ser incumbida aos jardins na literatura - a de ser um espaço alegórico pra lidar do único problema verdadeiros dos seres humanos, que é o tempo. Dois exemplos de cabeça que eu cito pra ilustrar é o lar de Destino, em Sandman, que é um labirinto de sebe que vai dar num grande (num infinito) jardim, e o Jardim dos caminhos que se bifurcam, de Borges, que contém nele uma multitude de possibilidades, infintas, talvez todas.

Poderíamos passar um dia todo por lá; não em Borges, que muitas vezes é um chato pedante, mas no seu jardim. Gosto de seu jardim, precisamente porque é pequeno. E isto não é fazer pouco; todos os jardins, na realidade, o são, quando você se vê dentro. Não deve ser à toa que o sonho e a literatura são os únicos lugares onde se pode encontrar jardins grandes, infinitos. Se eu estivesse num desses, acordado, não seria meu, seria de algo, de alguém. Um jardim grande, a se perder de vista já não é mais um jardim, é o mundo.

Todo jardim tem a impressão de guardar segredos sussurrados numa língua que não temos acesso, por um povo que aprendeu a morrer. Se você for pegar pra ver, um jardim pode ser um espaço de caminhos que se bifurcam, assim como uma planta cheia de galhos, um galho cheio de ramos menores, um ramo cheio de folhas, um folha que, se você olhar bem de perto, possui ranhuras bifurcadas, que reproduzem - ou seguem a mesma lógica - do desenho das folhas, dos ramos, dos galhos, das árvores e do jardim.

Estou aqui falando apenas de espaço e de mundo, de folhas e adubo e de objetos. Do quanto isso tudo parece pequeno. Perdoe o exagero, é que eu imagino essas coisas, andando com você pelo jardim.


Seu V.

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