Este é um trecho, traduzido com mais força de espírito do que apuro técnico, do livro "Days of war, nights of love", organizado por algum anônimo da CrimethInc. Não que eu concorde com todo o espírito do texto - deve ser uma das agonias de se traduzir, mesmo: a de estar tentado, em certa medida, e obrigado, em outra, a reescrever o que você lê. Mas ainda que eu não concorde, vale a pena. E a tradução e distribuição destra obra, dado o seu caráter, é livre e irrestrita.
É interessante que o que acontece no dia-a-dia reflete, de forma impecável, o que o texto fala.
O curioso de um espetáculo é como ele imobiliza os espectadores: do mesmo jeito que uma imagem, ele centra a sua atenção, os seus valores e ultimamente as suas vidas em torno de alguma coisa fora de vocês mesmo. Deixa-os ocupados sem fazê-los ativos, deixa-os sentido-se envolvidos sem dar-lhes a menor parcela de controle. Você pode pensar, provavelmente, numa centena de exemplos disto: programas de tevê, filmes de ação, revistas de fofoca, esportes, democracia representativa, Igreja.
O espetáculo também isola as pessoas das quais ele monopoliza a atenção. Muitos de nós sabemos mais sobre a vida dos personagens fictícios de seriados populares do que sabemos sobre as vidas e as paixões dos nossos vizinhos - pois ainda que falemos com eles, é sobre a programação da tevê, as notícias, o tempo; deste modo, as mesmas experiências e informações que compartilhamos como espectadores dos meios de comunicação em massa servem para nos afastar uns dos outros. É como num grande estádio de futebol: todos os que estão assistindo das arquibancadas são nulidades, independentemente de quem forem. Podem estar sentando colados um ao outro, mas todos os olhos estão no campo. Se falarem entre si, quase nunca sera sobre algum deles, mas sobre o jogo, que está lá sendo jogado na sua frente.
E mesmo que os torcedores de futebol não possam participar diretamente do jogo ao qual estão assistindo ou exercer alguma influência específica em sua própria natureza, eles atribuem a maior importância a esses eventos e associam suas próprias necessidades e desejos com o resultado, de uma maneira extraordinária. Ao invés de concentrarem a sua atenção em coisa que possuem uma influência íntima nos seus desejos reais, eles reconfiguram os seus desejos para que eles girem em torno das coisas às quais eles prestam atenção. A sua linguagem até se imiscui com as conquistas do time que cada um se identifica de acordo com o que aconteceu: "nós marcamos um gol!", "nós vencemos!", gritam os torcedores nas suas cadeiras e sofás.
Isso se estende num contraste nítido em relação à maneira com que as pessoas falam do que acontece em nossas próprias cidades e comunidades. "Estão construindo uma nova avenida", nós dizemos sobre as mudanças no bairro. "O que será que eles vão descobrir depois?", nos inquirimos sobre os avanços científicos. Nossa própria língua revela aquilo que pensamos de nós mesmos como espectadores de nossa própria sociedade. Não são "Eles", na verdade, os Outros misteriosos, que fizeram o mundo do jeito que o mundo é - fomos nós, humanidade. Nenhuma equipe sozinha de cientistas, urbanistas e burocratas endinheirados conseguiria ter feito todo o trabalho, invento e organização para que se pudesse transformar o planeta do jeito que nós todos transformamos; precisou-se, e ainda precisa, agora, de todos nós, coletivamente, fazendo isso. Nós estamos fazendo, todos os dias. E mesmo assim a maioria parece sentir que pode ter mais controle sobre os jogos de futebol do que das suas cidades, suas empregos, até de suas vidas.
Nós podemos ter mais sucesso na busca de nosso bem-estar se nós começássemos tentar a participar ativamente. Ao invés de aceitar o papel de espectador passivo de jogos, sociedade e da vida, cabe a cada um de nós entender como exercer uma parte ativa e significante do criar nos mundos ao nosso redor, e nos mundos de dentro. Talvez um dia poderemos construir uma nova sociedade onde nós poderemos estar envolvidos em conjunto nas decisões que afetam as vidas que vivemos; lá é que poderemos, manifestadamente, escolher o nosso destino.
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ResponderExcluir-Ser o escritor dos próprios sonhos, o autor e ator da própria obra.
Mas há tantas distrações.... Acabaram de gritar lá fora: GOLLLLLL....
Gosto das suas reflexões, da sua escrita. Ela é uma vacina de dignidade e inteligência contra o patético. Um abraço!
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