domingo, 21 de agosto de 2011

Dos propósitos insidiosos

imprático, na realidade


Desde os tempos do jornalismo que eu vejo as pessoas falando mal de grandes revistas, que não leem, que chega a dar é nojo de como o ranço conservador não declarado é forte, etc e tal. Tá certo - a primeira coisa que você pode fazer no jornalismo é dizer que é imparcial: se você é alguma coisa que não o fato em si, você já não pode assumir nenhuma alcunha que subentenda isso. Mas todo jornalista que não entrou na faculdade sabendo disso passou, no máximo, dois semestres na faculdade entranhando isso. É coisa batida.

O que alguns meios de comunicação fazem é muito mais insidioso do que o discurso, justamente porque é feito de forma magistral.

Está vendo a família da foto de cima? É de uma matéria de comportamento, recente. Vamos observá-la mais de perto. Há quatro pessoas na foto - subentende-se que é um núcleo familiar. Um homem, mais velho, ao centro, ladeado por três pessoas mais jovens, aparentemente, brincando na hora de ajudar o senhor a fazer a barba e pentear os cabelos.

Pare um pouquinho. Não é de se estranhar? Já viu coisa parecida? Na realidade, quero dizer, não numa revista? É muito complicado, se assear desse jeito.

Tudo, absolutamente tudo, nesta foto, é planejado, por uma equipe multiprofissional. Diabos, imagine aí um jornalista entrando na sua casa, com um fotógrafo, bate um papo de 15 minutos com você, depois vão todo mundo pro banheiro, fazer uma foto, bota o roupão, passa espuma na cara, ótimo, agora vamos na sala, maravilha, mais duas na varanda, ficou show.
Veja aí o roupão japonês do papai, as paredes do banheiro, as roupas dos filhos, a espuma de barbear espalhada pelo rosto, a caçula imitando, a pose, os sorrisos. A filha mais velha (eu li a matéria - poderia se assumir que era uma esposa, não?) não encosta o pente no cabelo dele, pra não pentear demais. O secador tem que aparecer. O filho tem um olhar de empolgação de quem foi pedido para segurar um barbeador rente ao rosto de alguém por mais tempo que o necessário (mais de nenhum). Veja aí se o sorriso e os olhos estão com o mesmo propósito. A única que se diverte é a caçulinha, porque, francamente, uma dessas não tá nem aí para essas coisas de imagem, ainda mais tendo a possibilidade de se sujar de espuma.

E isso porque ainda não falei da escolha das pessoas em si. Do tom da pele, da idade, da composição do núcleo familiar. De onde eles moram, quem são, o que pensam, o que fazem, o que consomem. A matéria é sobre os hábitos de filhos que se espelham nos pais - o que é um comportamento universal, em todas as configurações, enquanto que se admitem que ambos existam. Mas vá lá ver quais são as figuras predominantes. Vá ver se há uma visão confrontante do assunto.




se ele correr o menino cai para trás

Segundo exemplo. Você vê a família feliz de margarina e diz, muito inteligentemente: sou diferente deles. Isso aí não é uma família de verdade, é uma família de margarina. A propaganda de carro está querendo dizer, de alguma forma, que eu vou ser jovem, bonito, rico, bem sucedido e apessoado enquanto eu estiver dirigindo um desses. Eu, consumidor, já preso nessa lógica, não vou cair nisso, eu sei que tudo é um truque pra vender carro.

Não adianta, você já caiu no truque, muito antes; não no de que você vai ser rico, bonito, jovem e bem apessoado quando estiver num carro daqueles - esse é o truque inicial. Você, com toda a sua esperteza, nem percebeu que concorda com a propaganda de carro sobre o que é rico, o que é bonito e o que é jovem - que é tudo aquilo que ela está mostrando. Não importa a sua ideia própria do que seja beleza, família ou coisa do tipo. Há essa imagem aí, na sua cara, e não há espaço pra você, no dia-a-dia, se ater aos parâmetros menos superficiais dela.

É essa a finalidade principal, e é a mais bem-sucedida. O carro vem muito depois.

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