terça-feira, 16 de agosto de 2011

Não, não são os dragões

não é culpa dele


Provou-se que a descrença num mundo virtual é exagerada, infundada e com base em argumentos rasteiros. Veja bem: não é que o seu elfo-da-noite-paladino-nível-85-com-montaria-épica se compare ao seu perfil com 400 amigos na rede social. Ou com o seu relacionamento com os colegas na empresa. Ou os valores introjetados pela sua cultura. Ou o seu ideal de homem/mulher/pessoa num relacionamento amoroso.
...na verdade, é bem isso mesmo, se for falar em sentido.

No jogo, seu elfo é um objeto. Ele é uma representação do jogador, não é o jogador. Os monstros que ele subjuga, as quests que ele termina, os pedaços de equipamento diligentemente coletados em torno do tempo de jogo, tudo isso são objetos. Tudo o que eu adquirir com o meu elfo, através do meu esforço, gastando as minhas horas, tudo isso não vai poder sair do computador. Tudo isso, aliás, nesses jogos, especificamente, não está nem mesmo no meu computador - está no servidor da empresa que oferece o jogo¹.

Por outro lado, não há combates reais; caso eu cometa um erro grosseiro (esqueça de apertar a tecla de soltar a magia de proteção antes de me lançar ao combate), meu elfo será estripado, morto, deixará o corpo sem vida no chão. Ao menos até que eu decida ressuscitar num cemitério próximo. Eu estarei aqui, ainda, como estive mesmo antes de bater as armas. Posso renegar tudo o que sei, posso aprender novas profissões, posso apagar meu personagem da minha conta e ainda estarei aqui, inteiro.

Nesse sentido é que tanto os jogos eletrônicos (neste caso, os RPGs de mundos online persistentes - MMORPGs - embora a acepção possa ser estendida de forma mais ampla) quanto as redes sociais dão forma a demandas, necessidades, aspirações que reverberam em todos nós, de alguma forma. É por isso que eles existem e fazem sucesso.

O danoso desses RPGs é o que possibilita que eles existam e sejam aproveitados - o mundo, dentro de um RPG eletrônico está pronto e acabado e o seu papel nele é preestabelecido: você não vai inventar nada, você é um convidado a passar por lá e jogar de acordo com as regras. E é nesse ponto que as críticas aos jogos eletrônicos em geral, aos RPGs, ao diabo, falham: esses mecanismos se estendem muito mais além. Imagina aí você ter um dia extremamente frustrante, cansativo, você ter de lidar com um monte de gente chata, apressada, frustrada, recalcada, vazia, que não vai a lugar algum, todas essas pessoas na mesma situação que você pegando o engarrafamento pra voltar pra casa. A lógica desses dias pruma praia de areia laranja em Azeroth é semelhante, os sentimentos são opostos.

O problema dessas coisas não é o escapismo. Desde que nós inventamos a nossa mente, por assim dizer, nós temos algum refúgio secreto que carregamos sempre conosco, dentro do crânio. O inquietante, o verdadeiramente pobre sobre essas formas de utilização de tempo é que elas são, funcionalmente, o mesmo que ficar se olhando no espelho. Dragões não têm nada a ver com isso. A diferença é imagética, o sentido é o mesmo. 

Alguém que fica dedica muito tempo da sua vida, mais do que se julgue necessário, para upar um personagem num jogo, conseguir equipamentos épicos, não difere muito, em termos de significado, entre uma pessoa que passa o dia arrumando a página do seu perfil, mudando preferências, upando fotos ou simplesmente vagueando sem propósito. Ou de uma pessoa que não faz nada disso, mas compra um objeto de decoração pra colocar na casa, quase todo dia. Os perfis de personagens virtuais, junto com as salas de estar vazias e ainda assim atulhadas de objetos inanimados estão espalhadas por aí, pra falar toda a verdade sobre nós e o que nós fazemos.


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[1]: paralelos com o conceito de mais-valia são encorajados aqui.

2 comentários:

  1. Vitor. Sempre me perguntei o que valeria a pena nessa vida. Por horas achei que Conan estava certo sobre isso. Mas era uma pura ilusão adolescente.
    A verdade é que tudo na vida é uma projeção do que queremos ser. Horas upando o corpo na acadêmia. Horas Upando seu curriculo para garantir um bom emprego ou qualquer seja o motivo que alguém teria para preencher o seu curriculo. Também encontramos as mesma pessoas frustradas em salas de aula, em empregos e em todos os demais lugares já pensados.
    Se seguirmos o mesmo pensamentos os "Viciados", feliz ou infelizmente não sou um, possuem nesses jogos uma opção de escolha. Eles podem ser um "Warlock", um "Paladino" e o etc. O jogo irá apenas julga-lo pelo seu desempenho. Aquele mundo, seja este poligonal ou pixelado, se importa com suas escolhas, se importa o suficiente para garantir que com muito ou pouco esforço irá atingir o nivel máximo. Na realidade não existe garantia nenhuma que mesmo com todo seu esforço, bondade e dedicação vá atingir a igualidade, pois nesta dimensão tudo é naturalmente injusto.
    Mas quanto ao trazer a vida real. Existem grandes amizades que surgiram de jogos, outros até se casaram. Alguns já mataram, roubaram, brigaram e etc por conta de jogos, são pequenos simulacros da raça humana onde todas as interações acontecem normalmente com a vantagem que é possivel kickar da sua party o inferno sartriano chamado os outros. Até é possivel dizer que nesses jogos Deus existe e é relativamente justo, aqueles que burlam as regras são realmente punidos, muito diferente do nosso rpg da vida real.
    No fim acredito que o problema é quando as pessoas levam o mundo, a vida ou o que for a sério demais. Geralmente não gosto dessas pessoas a liberdade, pelo menos para mim, é levar a vida com um tom de brincadeira e contos de fada do tipo era uma vez mesmo.
    Quanto ao argumento da mais valia acho que funciona bem para econômia e antropologia, mas pra mim, como um bom niilista, a mais valia é o que você, eu e toda essa humanidade ilusória escolhem amar.
    Outros pontos do nosso dialogo ficaram no facebook. Um abração.

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  2. ...
    - O Cruel é que assim como nos rpg on line, tudo na vida não nos pertence... não temos nada, pois afinal, tudo é de domínio do servidor e sempre temos que pagar para acessar a ele, de uma forma ou de outra...

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