animais parecidos com os humanos
Há um certo consenso que a capacidade de criar signos é a invenção mais genial da humanidade. Eu não sei, mas acho que é quase lá. Tudo bem que só o fato de criar signos me dá esses luxos - diga-se, o de não entender e o de discordar -, mas o que é genial mesmo é o fato de se ter filas neste mundo. Outros animais, cupins, formigas, muito menores e, ao que parece, menos espertos[1], já se organizam de maneira semelhante. Mas não reclamam na fila, apenas correm para lá e para cá, carregando seus torrõezinhos de terra, acumulando anos de interação constante, deriva natural e aprendizado.
George Orwell é que dizia que, se se quer ter uma imagem do futuro, é só imaginar uma bota prensando um rosto humano para sempre. Eu não digo tanto; para mim, o futuro é uma fila de banco, longa, interminável. Menos violência real, mais violência simbólica. Se você for parar pra observar (e é isso que mata uma pessoa nesse mundo, parar pra observar - e toda essa falta de observação é talvez o que nos põe em filas), toda fila evidencia os dois lados de sua necessidade e justificativa - o lado das pessoas que se submetem e lado das que põem à prova tudo isso.
Ninguém escapa ileso duma boa fila. Uma boa fila é como uma síntese bem contada da humanidade. Pode-se exercer toda uma tipologia de sujeitos que praticam fila:
Há os que reclamam da fila, que dizem que meu deus do céu, isso é uma imoralidade, uma fila grande desse jeito, onde já se viu, até que chega a sua vez, aí eles param de reclamar.
Há os que cedem o lugar por conta própria, mas isso é raríssimo.
Há os que estão dentro da fila e furam, afinal de contas, vagou faz é tempo (10 segundos) e a pessoa da frente não se mexe, é lesa, até merece, e além do mais eu estou com pressa e minha necessidade é importantíssima, vamo adiantando aí né minha filha.
Há os que observam tudo isso e se omitem, não se sabe o porquê.
Há os que estão numa fila pensando na próxima fila. Talvez nem entendam.
Há aqueles que furam e se fazem de desentendidos, como quem diz, hã, e a fila é desse tamanho? pensava que acabava aqui, onde não é nem a metade.
Há os realmente desentendidos, que morrem de constrangimento.
Há os que pegam a fila toda pra aprender, no final, que a fila era errada, que era aquela outra, ou então que pra isso nem precisava de fila.
Há os que até podiam ter perguntado, mas decidiram que perguntar, numa fila daquelas, num espaço daqueles, era algo pior do que pegar uma fila.
Há até os que gostam de pegar uma fila!
Os ramos tradicionais do conhecimento reconhecem a posição do ser humano, fora do exclusivamente fisiológico, como sujeito, apenas quando este se insere no meio social. De início, alguém afirma que aquele é um homem para que, depois, aquele homem possa dizer de si mesmo "eu sou um homem e aqui estão outros homens". Pra fora com essas visões antiquadas! - é muito mais embaixo: o homem, o sujeito, o que ele quiser dizer de si mesmo que seja pretensamente além dos cupins trabalhadores, é todo aquele que pega uma boa fila.
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[1]: "Que
o homem é a mais nobre das criaturas pode ser inferido do fato de que
nenhuma outra jamais contestou essa pretensão." - G.C. Lichtenberg.

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ResponderExcluir-o ruim da fila não é haver a fila, o ruim da fila não é nem mesmo ter que estar nela. o Ruim da fila está em nós mesmos, que sempre a vemos como algo ruim, incontestável.
Penso agora na formiga e nos cupins, em sua sabedoria que não usa raciocínio algum, andar uma atrás das outras jamais é uma fila.