A moça parecia que tinha que voltar para casa o quanto antes, o mais rapidamente possível, e aquele ônibus lotado no horário de pico estava especialmente incumbido de demovê-la desse propósito. No caminho, esbarrou nas pessoas para passar à frente, deu uma pequena braçada até o lugar depois de mim e estancou lá. Pensei em pedir meu ombro de volta, que ela intencionou levar consigo e talvez tenha esquecido que era de outra pessoa, mas aí calei. Isto tudo teve a duração de um choque, de um empurrão. Não estava em lugar algum, mais.
Todo tipo de pressa tem sempre um quê de um levante impotente, inócuo. As teorias (e a experiência) afirmam que o tempo, como nos é dado, é psicológico - que ele se desprende e que se espalha. Contudo, nós só dizemos isso sobre o tempo porque ele, em si, não pode dizer nada. O tempo se parece mais com um problema insolucionável, e nós que trocamos as pernas pelas mãos para mexer nele. Quem colocou a questão de forma genialmente simples foi Heráclito, dizendo que o mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque o homem de antes não é o mesmo homem de agora, nem o rio de antes é o mesmo do rio que está - como dizer? - acontecendo. Há, em algum ponto, uma diferença essencial, que nós faz perceber que houve alguma coisa, que está havendo, e que, por suposto, haverá. Tudo isto se entrelaçando continuamente; tudo muda, e tudo tem um mesmo.
Há a mulher, já em algum outro lugar. Há o empurrão. Há o rio. Há o ônibus, há o meio da rua; tudo isto ficou para trás. Há um certo retorno a algum lugar que não entendemos direito, não podemos entender. E talvez seja por isso mesmo que nos dispomos tanto a falar do tempo: não temos escolha, não podemos estar lá. Apesar de todo o discurso de Heráclito, do rio e do tempo, bem como as suas variações, apreender a coisa de forma direta, o problema é que ele não comporta mais de um homem, nem mais de um rio. Homem e rio são duas categorias diversas, separadas, interdependentes. Nem tanto antes e depois: outra coisa.
O que é mais próximo do que temos aqui, no ônibus, horário de pico, ou em qualquer algum lugar, é que são catorze (são infinitos) os homens e catorze (infinitos) os rios.
Concebi, instantaneamente no instante do empurrão
e algum tempo depois, uma suposição sobre o tipo de pressa daquela moça. É o que tento fazer agora, com a escrita: estender artificialmente aquele empurrão. Não remetia a algum tipo de pressa especial, de
felicidade ou arrependimento, ou ansiedade, não parecia vir de
excitação. Foi um empurrão por demais longo, se você pegar os relógios
dos dias de hoje e contar o tempo, e por demais fraco, se for pegar o
afeto.
Há a mulher, já em algum outro lugar. Há o empurrão. Há o rio. Há o ônibus, há o meio da rua; tudo isto ficou para trás. Há um certo retorno a algum lugar que não entendemos direito, não podemos entender. E talvez seja por isso mesmo que nos dispomos tanto a falar do tempo: não temos escolha, não podemos estar lá. Apesar de todo o discurso de Heráclito, do rio e do tempo, bem como as suas variações, apreender a coisa de forma direta, o problema é que ele não comporta mais de um homem, nem mais de um rio. Homem e rio são duas categorias diversas, separadas, interdependentes. Nem tanto antes e depois: outra coisa.
O que é mais próximo do que temos aqui, no ônibus, horário de pico, ou em qualquer algum lugar, é que são catorze (são infinitos) os homens e catorze (infinitos) os rios.
Eu tenho vontade de perguntar, minha senhora, qual é a sua pressa? Tem pressa de viver, pressa de chegar na sua casa, de tirar os sapatos, de lavar o rosto, reencontrar os filhos, o abraço do marido, pressa de esquentar a janta, colocar a ração do gato, pressa de mandar esse mundo aí à merda e de se encerrar num cobertor? Pressa de sentir, finalmente, no resto do dia que lhe cabe, finalmente alguma coisa? Pressa de dormir assistindo tevê? De acordar amanhã e ter pressa? Você sabe, realmente, do que tem pressa? Poderia dizê-lo, pra mim, sem que o olhar a traia? Sua pressa é muito confusa e eu não lhe entendo.
Minha pressa é de chegar em casa, ligar meu computador, chegar se mensagens de amigos foram deixadas para mim, se convites para saídas foram feitos, de pessoas com quem a muito não falo vieram saber de mim. porem antes disso é bom chagar em casa depois de um dia fora da mesma muito exaustivo , tomar um banho, por roupas limpas, se alimentar devidamente, conversar com mãe ou pai, e se tiver saco (coisa que quase não tenho) estudar alguma coisa da faculdade...
ResponderExcluirSua pressa é bonita, moça, quando é sua.
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