sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A intenção e o conselho de Kafka.

corte o resto e se mantenha nas palavras.


Vocês podem saber de forma bem fácil o que aconteceu. Uma agência de publicidade veiculou esta peça em questão parabenizando o Dia do Ginecologista. O infortúnio foi que eles não haviam atentado para a possibilidade de que a mensagem veiculada na sua peça publicitária poderia ser tomada como algo de extremo mau gosto. Quem diria. Pauta do próximo meeting: colposcopia talvez não seja tão sexy quanto nós achávamos.

Mas voltemos. A agência soltou a peça em questão num veículo de publicidade, recebeu críticas, apagou a postagem e, através do mesmo veículo, publicou alguma coisa que ela chamou de pedido desculpas: "Pela simples razão da intenção. Não a tivemos"[1]. Ok, anotado. Muito satisfatório aos dias de hoje. Mas há alguma coisa bem grande (convenientemente) deixada de lado.

* * *

Uma das maneiras de se ler um discurso que tem no meio um belo "mas" é ler apenas o que aconteceu depois do "mas" e descartar o que veio antes - afinal tudo o que veio antes é nada mais que mera intenção, só aconteceu na cabeça de uma pessoa. O discurso em si é uma tentativa de conciliar o que uma pessoa pensa e o que sente (ex: "Eu te amo, mas..."), aquilo a que só ele tem acesso direto, com o que aconteceu de fato (ex:"...estou indo embora."), a parte pública e observável da história, a parte que existe fora da cabeça dela. Apenas uma tentativa, vale dizer. Como conciliar dois irmãos pequenos, disputando uma coisa só. O "mas", então, vem para manter o equilíbrio, mesmo que de forma instável. Vai possibilitar que sejam ditas as duas coisas concomitantemente, e passar a ilusão de que se perdeu o mínimo possível, que o mínimo possível foi embora. A ambiguidade nestas questões é a condição de que estas coisas existem, de que o status quo se mantenha (ex: que seja possível amar uma pessoa e abandoná-la ao mesmo tempo)[2].

Entenda, o problema é real, a própria pessoa realmente não consegue reconciliar as duas coisas entre si: ela não entendeu o conselho de Kafka ("na luta entre você e o mundo, favoreça o mundo.") O problema não é que ela não ame, o problema é que, para ela, ela realmente ama; ainda assim, ela realmente vai embora.

E dentre as alternativas possíveis de se desembaraçar propriamente essa ambiguidade, uma delas é negá-la. Daí o "mantenha-se nas palavras". Ficar apenas no compartilhável, no traduzível. O resto se rearranja de acordo. Ao se aplicar isto na propaganda em questão, ficamos com uma proposição interessante: invejamos vocês. O que há para invejar em vocês, o que causou tanto mal-entendido, foi o acesso a partes do corpo feminino.  E o que nos autoriza a invejar (e poder dizer isso escancaradamente) é o fato de que vocês, ginecologistas, são profissionais (e não só profissionais, estritamente profissionais).

Ora, o "mas" sobreposto a isso mascara o fato de que, na verdade, não há razão para ninguém invejar ninguém: os ginecologistas referenciados são profissionais (estritamente profissionais), não estão interessados no que o autor está; a propaganda gira em torno de si mesma o tempo todo. Tudo o que está acontecendo nesta situação é que se fala ao outro, mas tudo o que se fala ao outro não é sobre o outro.

E é isto o principal, não só desta propaganda, mas da propaganda em si: engana-se quem acha que ao público-alvo desta propaganda se limitava apenas aos ginecologistas. Por que não publicar num órgão específico, e sim no facebook? E o principal, o que ninguém notou: por que o "Nós", bem grande, em maiúsculo, no meio da sentença? O que isto tem a dizer? "Eu sei que você não gosta de pastel, mas ainda assim eu te invejo porque eu gosto de pastel. Oh, e você vive rodeado de pastel. Parabéns." Não, não é sobre os ginecologistas, de fato, nunca foi.



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[1]: Esta alguma coisa que chamaram de pedido de desculpa foi redigida por um mestre, como se pode ver na última frase: "Falhamos de não nos comunicar perfeitamente."  Só alguém que manja muito termina um pedido de desculpas fazendo a pessoa a quem ele pede dizer ou pensar "eu sei", encerrando o assunto.
[2]: O que une e possibilita o convívio destas duas acepções impossíveis é justamente um terceiro nível de discurso, mais difícil de observar, tudo aquilo que não foi dito nem para si e nem para a outra pessoa (ex: "...e a verdade é que é maravilhoso ir embora - mesmo que seja horrível.").

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O antagonista.

ali, adiante
numa relação de dois participam três.


Olá. Deixe eu me apresentar. Sou o novo namorado da mocinha. Não sou o mocinho: ele não está aqui neste momento. Foi separado de sua amada por um plano maligno de minha autoria; está lá fora, distante. Está prestes a saber que ele precisa mudar pra não perdê-la.

Enquanto isso, ela, quase linda, está aqui do meu lado; peço para que se anime um pouco, fique mais coradinha; outra coisa mais seria grosseria. Ora, vocês acham que não vejo que a mocinha não tem um pingo de desejo por mim. Acham que ignoro que a motivação dela estar comigo não é - nunca foi - amor, aquilo que vocês chamam de amor, aquilo que vocês aprenderam sobre amor na televisão e no cinema. Acham que é tudo vaidade minha, quando, na realidade, a vaidade é de vocês. Vocês não sabem de nada: vocês acham que eu sou cego e orgulhoso e não vejo o quanto ela, no fundo, ama, deseja aquele outro rapaz. É claro que sei. Qualquer um saberia: é por isso que estamos aqui.

Eu sou - não, melhor-, estou neste lugar de contraponto. O outro rapaz, o que é o melhor para ela (se alguma coisa desse tipo existir), brilha em comparação a mim. E não seria por menos... tudo o que ele é e o que ele faz foi planejado para que vocês gostassem dele, se identificassem com ele. Para que, ao menos num instante, reconhecessem alguma coisa de si nele. Vocês amam igual a ele, vocês sofrem igual a ele - mas nem percebem que tudo o que ele é foi feito sobre medida para vocês? O mocinho é completamente artificial. O mocinho é uma roupa, é um boneco. Um espelho. Ele está lá fora, sem ela, neste momento, eternamente em perda, suspenso da responsabilidade e do tédio de manter algo. Só a dor, e a perda, claro. Ele vai ter que mudar. 

Daqui a uns instantes ele vai chegar aqui, e junto dele vai chegar a mudança. Meu tempo já não é tão longo, preciso da ajuda de vocês. Gostaria que vocês imaginassem, uma história, é mais ou menos a seguinte:

Rapaz conhece garota. Eles se estranham. Eles se descobrem. Eles se apaixonam. Alguém dos dois foge, se ausenta. Tragédia. Ele sente que precisa provar o seu valor. Ele prova. Cartase. Fim.

Já ouviram esta história, inúmeras vezes? Eu estou nela, condenado a assisti-la, repetidamente, à revelia. Sou tão coadjuvante quanto, por exemplo, a amiga da mocinha, e não é à toa que às vezes eu termino formando um par amoroso com ela.

Mas, veja, veja só isso. Aí vem o mocinho, já escuto a confusão que ele causa do lado de fora. Tudo o que peço é que vocês olhem pra mim e digam, me salvem, me tirem do lugar de onde eu cumpro minha eterna danação, apenas respondendo isso: 

Poderia ter sido eu, não? No lugar dele?
 
Pensamos em todo tipo de coisas bonitas nessa hora, menos no fato de não escolher por quem somos amados. Mesmo que a história se repetisse. Eu disse antes que a mudança está vindo, mas a verdade é que não há mudança; é tudo um ciclo que nunca acaba. Em outros lugares, não há este fim - isto que chamam de fim é só o começo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Conjecturas.

onde o medo se foi não haverá nada.


E se você não fosse a última Coca-Cola do deserto? Já parou pra pensar?
E se você fosse mais arrogante do que acha que é?
E se você não fosse bom o bastante?
E se desse errado no final?
E se você tivesse desejado o mal?
E se você o que você quer não bastar, nunca bastar?
E se você se arrependesse e não pudesse dizer pra ninguém?

Se aquele medo todo que você sente não é, na verdade, alguma forma maluca de você se proteger de alguma coisa que você nem sabe ao certo o que é?
E se, por acaso, você tivesse medo de saber?

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Doze dicas para não mudar a sua vida.


 o problema não é entender o mundo, o problema é lembrar depois.


Aqui vai uma dica de como mudar. Não se preocupe, você vai lê-la e não vai mudar apenas por ter lido.

A dica é essa: mudança nenhuma pode ser escrita. Porque simplesmente não.
Tudo o que podemos fazer é falar após a mudança. Ou antes dela. Ou, quem sabe, ao mesmo tempo em que mudamos. Mas não devemos confundir as palavras pela mudança em si. 


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Para ilustrar, imaginemos um homem hipotético que emagreceu 28 quilos e uma mulher imaginária que começou a se arrumar e a dizer "sim, eu quero, eu faço questão disso". Eles dois, merecidamente, têm todo o louvor pelo que fazem e fizeram. Eles talvez podem até ter seguido "Os Passos Para O Sucesso" da moda, lido as colunas da terapeuta do amor da estação, mas, devo colocar a pergunta: onde, exatamente, aconteceu a mudança? O que pode lhes diferenciar do monte de outras pessoas que são viciadas em consumir autoajuda, indicações, orientações, exercícios, visualizações?

Ora, vejamos: muitos desses produtos não fazem as pessoas mudarem. Minha dica, por exemplo não vai fazer você mudar e você já sabia disso antes de lê-la. Alguns manuais, um pouco mais atentos, já explicitam diretamente que não depende deles. Alguns até te falam o porquê de você não mudar, de forma bem explicadinha (e espirituosa), e você concorda, bestamente, "é verdade, eu não mudo", e aí acha muito inteligente o autor, ele realmente fala de forma sensacional, gostei muito, vou comprar os outros livros dele.

Mas, mas... é por isso que você não muda! Porque você concorda! Ninguém te obrigou a ler o livro, você que foi lá com uma pergunta implícita na cabeça e teve a resposta que pediu. Saiu satisfeito como sairia de um fast-food mental: pediu um número 5: "Eu quero mudar" e saiu com uma lista de outras frases lindinhas.

Muito legal, bacana, maravilha; o problema é que isso é absolutamente inócuo.


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Sabe qual a grande maneira mais certa, garantida, de passar num vestibular ou concurso, maneira essa testada e aprovada por todos os candidatos de sucesso?
É, isso mesmo, você acertou, é indo lá e fazendo a prova. É a melhor maneira, até hoje, ainda não surgiu uma que superasse. William Douglas pode atestar o que eu digo.

Não adianta dizer que vai estudar. Não adianta ver as dicas para passar em concurso - todas as dicas que dão certo contêm em algum lugar delas o seguinte predicamento: "vá lá e faça". Misteriosamente, você já sabe disso e talvez você ignore. Deve haver alguma outra maneira.

Do mesmo jeito sãosomos elasnós, as pessoas que querem mudar: elas dizemos "eu quero mudar pra melhor". Mas aí que está a tragédia: elasnós não podemos querer mudar. É um pedido vazio, ilusório.  Ao invés de querer mudar, a única coisa que elas fazemos concretamente é querermos ser uma pessoa que muda. Estãomos fazendo isso tanto que não se nos damos conta de que o quanto não queremos é mudança, mas validação da mudança.

Que é justamente o que nós não temos assim, facilmente, nos dias de hoje.

Talvez nós olhamos muito mais para o que é que nós queremos mudar e esquecemos (ou nem queremos ver) em nós o que é que não muda, o que se repete.

Tente lembrar disso, se for capaz.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Aquilo que não ______.

talvez não haja nada realmente errado com o chão que você pisa.
 

Não há fotos sorridentes em alguns lugares da própria vida. Pode-se imaginar que o que existe nas redes sociais são as fachadas, varandas, marquises, os espaços grandes, iluminados, confortáveis, cheios de imagens publicitárias, sorrisos, lustres, copos, flashes, dourados, esperanças de lutas e bons augúrios.

E há os outros lugares além destes: as cozinhas, os vestiários, os becos, as ruelas, os sótãos, os porões. Os espelhos. Alguma calçada escura, iluminada por um poste. Os arrependimentos. Um momento na sua infância que não deve ser compartilhado, senão vira pó. Uma pilha de curriculum vitae com as coisas que você tentou e falhou. Algo, ou alguém, ainda lá.

Ninguém vê você indo até estes lugares, saindo às escondidas no final da festa.

Por  trás de alguma parede falsa naquela sala de jantar cheia há uma escada que desce para o fundo. Nós o convidamos para descer lá embaixo, ou então sair de lá.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Apontamentos sobre a psiquê.


Há uma noção de real: um mundo à porta do observador, um lugar onde não podemos alcançar. Um mundo sem linguagem, sem cultura. Um mundo onde o absurdo não é nem ao menos absurdo. Não havia pensamento – o pensamento só pode ser proposto num lugar onde haja linguagem. Um mundo onde não estamos lá.
Há, então, o Eu nesse mundo. Nos constituímos a partir da nossa interação com o meio – há os nossos aparelhos de sensopercepção, nossos processos de captação e decodificação da realidade. Há a memória e a cognição. Há a capacidade de fabricar instrumentos e de utilizá-los, de guardá-los. Depois há a capacidade de transmitir essa fabricação de instrumentos.
A mente é o lugar onde nós criamos outros instrumentos, de segunda ordem. É a instância que talha uma ponta-de-lança que não é feita de nenhum material específico. Que transforma uma pedra num instrumento de contusão. Só que ainda não houve pedra e não houve lança.
Esses instrumentos são utilíssimos. Mas eles não podem ser utilizados contra o que é real. Para o real é necessário pedras e lanças mais sólidas.
Há a linguagem. Ela não está aqui nem ali. Ela é o inverso do real. Se o real é tudo, a linguagem é incompleta; se o real nos escapa, a linguagem diz aquilo que pode ser dito.
E o “nos”, de “nos escapa”, também não é do real. Toda consciência deriva de linguagem. Anote isso.

sábado, 31 de março de 2012

Beleza e passado.

É interessante perguntar a si, durante aqueles momentos em que você se acha a pessoa mais horrorosa da face da terra: onde e quando eu fui bonita(o)?

Quase sempre a sua resposta é um instante, que (não por acidente) passou e não volta mais, já era, c'est cassé. Sempre para trás, nunca aqui, nunca deste ponto: ou você era mais jovem ou era mais magra ou era mais musculoso. Você não era nem essas coisas todas naquela época, mas hoje, quando você vê, você não sabia que era mais bonito naquela época do que você iria ser hoje, neste momento, quando você indaga. Você era mais adolescente do que é hoje, mais cheio de vida. Você era - sim, isto é bonito, agora - mais estúpido. Você era criança naquela sua resposta e hoje você não é. Ou ainda, na intermitência de você nunca ter sido uma criança bonita (e, lembre-se que toda memória é um julgamento), você era um bebê. 

E, talvez, se nem aí estivesse a sua saudade, se não restasse nenhuma lembrança, nenhum tempo bom, a sensação é a de que há ao menos alguma coisa, algum desejo.