terça-feira, 30 de agosto de 2011

O futuro interminável

 animais parecidos com os humanos


Há um certo consenso que a capacidade de criar signos é a invenção mais genial da humanidade. Eu não sei, mas acho que é quase lá. Tudo bem que só o fato de criar signos me dá esses luxos - diga-se, o de não entender e o de discordar -, mas o que é genial mesmo é o fato de se ter filas neste mundo. Outros animais, cupins, formigas, muito menores e, ao que parece, menos espertos[1], já se organizam de maneira semelhante. Mas não reclamam na fila, apenas correm para lá e para cá, carregando seus torrõezinhos de terra, acumulando anos de interação constante, deriva natural e aprendizado.

George Orwell é que dizia que, se se quer ter uma imagem do futuro, é só imaginar uma bota prensando um rosto humano para sempre. Eu não digo tanto; para mim, o futuro é uma fila de banco, longa, interminável. Menos violência real, mais violência simbólica. Se você for parar pra observar (e é isso que mata uma pessoa nesse mundo, parar pra observar - e toda essa falta de observação é talvez o que nos põe em filas), toda fila evidencia os dois lados de sua necessidade e justificativa - o lado das pessoas que se submetem e lado das que põem à prova tudo isso.
Ninguém escapa ileso duma boa fila. Uma boa fila é como uma síntese bem contada da humanidade. Pode-se exercer toda uma tipologia de sujeitos que praticam fila:

Há os que reclamam da fila, que dizem que meu deus do céu, isso é uma imoralidade, uma fila grande desse jeito, onde já se viu, até que chega a sua vez, aí eles param de reclamar.
Há os que cedem o lugar por conta própria, mas isso é raríssimo.
Há os que estão dentro da fila e furam, afinal de contas, vagou faz é tempo (10 segundos) e a pessoa da frente não se mexe, é lesa, até merece, e além do mais eu estou com pressa e minha necessidade é importantíssima, vamo adiantando aí né minha filha.
Há os que observam tudo isso e se omitem, não se sabe o porquê.
Há os que estão numa fila pensando na próxima fila. Talvez nem entendam.
Há aqueles que furam e se fazem de desentendidos, como quem diz, hã, e a fila é desse tamanho? pensava que acabava aqui, onde não é nem a metade.
Há os realmente desentendidos, que morrem de constrangimento.
Há os que pegam a fila toda pra aprender, no final, que a fila era errada, que era aquela outra, ou então que pra isso nem precisava de fila.
Há os que até podiam ter perguntado, mas decidiram que perguntar, numa fila daquelas, num espaço daqueles, era algo pior do que pegar uma fila.
Há até os que gostam de pegar uma fila!

Os ramos tradicionais do conhecimento reconhecem a posição do ser humano, fora do exclusivamente fisiológico, como sujeito, apenas quando este se insere no meio social. De início, alguém afirma que aquele é um homem para que, depois, aquele homem possa dizer de si mesmo "eu sou um homem e aqui estão outros homens". Pra fora com essas visões antiquadas! - é muito mais embaixo: o homem, o sujeito, o que ele quiser dizer de si mesmo que seja pretensamente além dos cupins trabalhadores, é todo aquele que pega uma boa fila.

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[1]: "Que o homem é a mais nobre das criaturas pode ser inferido do fato de que nenhuma outra jamais contestou essa pretensão." - G.C. Lichtenberg.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A filosofia do empurrão

A moça parecia que tinha que voltar para casa o quanto antes, o mais rapidamente possível, e aquele ônibus lotado no horário de pico estava especialmente incumbido de demovê-la desse propósito. No caminho, esbarrou nas pessoas para passar à frente, deu uma pequena braçada até o lugar depois de mim e estancou lá. Pensei em pedir meu ombro de volta, que ela intencionou levar consigo e talvez tenha esquecido que era de outra pessoa, mas aí calei. Isto tudo teve a duração de um choque, de um empurrão. Não estava em lugar algum, mais.

Todo tipo de pressa tem sempre um quê de um levante impotente, inócuo. As teorias (e a experiência) afirmam que o tempo, como nos é dado, é psicológico - que ele se desprende e que se espalha. Contudo, nós só dizemos isso sobre o tempo porque ele, em si, não pode dizer nada. O tempo se parece mais com um problema insolucionável, e nós que trocamos as pernas pelas mãos para mexer nele. Quem colocou a questão de forma genialmente simples foi Heráclito, dizendo que o mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque o homem de antes não é o mesmo homem de agora, nem o rio de antes é o mesmo do rio que está - como dizer? - acontecendo. Há, em algum ponto, uma diferença essencial, que nós faz perceber que houve alguma coisa, que está havendo, e que, por suposto, haverá. Tudo isto se entrelaçando continuamente; tudo muda, e tudo tem um mesmo.

Concebi, instantaneamente no instante do empurrão e algum tempo depois, uma suposição sobre o tipo de pressa daquela moça. É o que tento fazer agora, com a escrita: estender artificialmente aquele empurrão. Não remetia a algum tipo de pressa especial, de felicidade ou arrependimento, ou ansiedade, não parecia vir de excitação. Foi um empurrão por demais longo, se você pegar os relógios dos dias de hoje e contar o tempo, e por demais fraco, se for pegar o afeto.

Há a mulher, já em algum outro lugar. Há o empurrão. Há o rio. Há o ônibus, há o meio da rua; tudo isto ficou para trás. Há um certo retorno a algum lugar que não entendemos direito, não podemos entender. E talvez seja por isso mesmo que nos dispomos tanto a falar do tempo: não temos escolha, não podemos estar lá. Apesar de todo o discurso de Heráclito, do rio e do tempo, bem como as suas variações, apreender a coisa de forma direta, o problema é que ele não comporta mais de um homem, nem mais de um rio. Homem e rio são duas categorias diversas, separadas, interdependentes. Nem tanto antes e depois: outra coisa.

O que é mais próximo do que temos aqui, no ônibus, horário de pico, ou em qualquer algum lugar, é que são catorze (são infinitos) os homens e catorze (infinitos) os rios.

Eu tenho vontade de perguntar, minha senhora, qual é a sua pressa? Tem pressa de viver, pressa de chegar na sua casa, de tirar os sapatos, de lavar o rosto, reencontrar os filhos, o abraço do marido, pressa de esquentar a janta, colocar a ração do gato, pressa de mandar esse mundo aí à merda e de se encerrar num cobertor? Pressa de sentir, finalmente, no resto do dia que lhe cabe, finalmente alguma coisa? Pressa de dormir assistindo tevê? De acordar amanhã e ter pressa? Você sabe, realmente, do que tem pressa? Poderia dizê-lo, pra mim, sem que o olhar a traia? Sua pressa é muito confusa e eu não lhe entendo.

domingo, 21 de agosto de 2011

Dos propósitos insidiosos

imprático, na realidade


Desde os tempos do jornalismo que eu vejo as pessoas falando mal de grandes revistas, que não leem, que chega a dar é nojo de como o ranço conservador não declarado é forte, etc e tal. Tá certo - a primeira coisa que você pode fazer no jornalismo é dizer que é imparcial: se você é alguma coisa que não o fato em si, você já não pode assumir nenhuma alcunha que subentenda isso. Mas todo jornalista que não entrou na faculdade sabendo disso passou, no máximo, dois semestres na faculdade entranhando isso. É coisa batida.

O que alguns meios de comunicação fazem é muito mais insidioso do que o discurso, justamente porque é feito de forma magistral.

Está vendo a família da foto de cima? É de uma matéria de comportamento, recente. Vamos observá-la mais de perto. Há quatro pessoas na foto - subentende-se que é um núcleo familiar. Um homem, mais velho, ao centro, ladeado por três pessoas mais jovens, aparentemente, brincando na hora de ajudar o senhor a fazer a barba e pentear os cabelos.

Pare um pouquinho. Não é de se estranhar? Já viu coisa parecida? Na realidade, quero dizer, não numa revista? É muito complicado, se assear desse jeito.

Tudo, absolutamente tudo, nesta foto, é planejado, por uma equipe multiprofissional. Diabos, imagine aí um jornalista entrando na sua casa, com um fotógrafo, bate um papo de 15 minutos com você, depois vão todo mundo pro banheiro, fazer uma foto, bota o roupão, passa espuma na cara, ótimo, agora vamos na sala, maravilha, mais duas na varanda, ficou show.
Veja aí o roupão japonês do papai, as paredes do banheiro, as roupas dos filhos, a espuma de barbear espalhada pelo rosto, a caçula imitando, a pose, os sorrisos. A filha mais velha (eu li a matéria - poderia se assumir que era uma esposa, não?) não encosta o pente no cabelo dele, pra não pentear demais. O secador tem que aparecer. O filho tem um olhar de empolgação de quem foi pedido para segurar um barbeador rente ao rosto de alguém por mais tempo que o necessário (mais de nenhum). Veja aí se o sorriso e os olhos estão com o mesmo propósito. A única que se diverte é a caçulinha, porque, francamente, uma dessas não tá nem aí para essas coisas de imagem, ainda mais tendo a possibilidade de se sujar de espuma.

E isso porque ainda não falei da escolha das pessoas em si. Do tom da pele, da idade, da composição do núcleo familiar. De onde eles moram, quem são, o que pensam, o que fazem, o que consomem. A matéria é sobre os hábitos de filhos que se espelham nos pais - o que é um comportamento universal, em todas as configurações, enquanto que se admitem que ambos existam. Mas vá lá ver quais são as figuras predominantes. Vá ver se há uma visão confrontante do assunto.




se ele correr o menino cai para trás

Segundo exemplo. Você vê a família feliz de margarina e diz, muito inteligentemente: sou diferente deles. Isso aí não é uma família de verdade, é uma família de margarina. A propaganda de carro está querendo dizer, de alguma forma, que eu vou ser jovem, bonito, rico, bem sucedido e apessoado enquanto eu estiver dirigindo um desses. Eu, consumidor, já preso nessa lógica, não vou cair nisso, eu sei que tudo é um truque pra vender carro.

Não adianta, você já caiu no truque, muito antes; não no de que você vai ser rico, bonito, jovem e bem apessoado quando estiver num carro daqueles - esse é o truque inicial. Você, com toda a sua esperteza, nem percebeu que concorda com a propaganda de carro sobre o que é rico, o que é bonito e o que é jovem - que é tudo aquilo que ela está mostrando. Não importa a sua ideia própria do que seja beleza, família ou coisa do tipo. Há essa imagem aí, na sua cara, e não há espaço pra você, no dia-a-dia, se ater aos parâmetros menos superficiais dela.

É essa a finalidade principal, e é a mais bem-sucedida. O carro vem muito depois.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Não, não são os dragões

não é culpa dele


Provou-se que a descrença num mundo virtual é exagerada, infundada e com base em argumentos rasteiros. Veja bem: não é que o seu elfo-da-noite-paladino-nível-85-com-montaria-épica se compare ao seu perfil com 400 amigos na rede social. Ou com o seu relacionamento com os colegas na empresa. Ou os valores introjetados pela sua cultura. Ou o seu ideal de homem/mulher/pessoa num relacionamento amoroso.
...na verdade, é bem isso mesmo, se for falar em sentido.

No jogo, seu elfo é um objeto. Ele é uma representação do jogador, não é o jogador. Os monstros que ele subjuga, as quests que ele termina, os pedaços de equipamento diligentemente coletados em torno do tempo de jogo, tudo isso são objetos. Tudo o que eu adquirir com o meu elfo, através do meu esforço, gastando as minhas horas, tudo isso não vai poder sair do computador. Tudo isso, aliás, nesses jogos, especificamente, não está nem mesmo no meu computador - está no servidor da empresa que oferece o jogo¹.

Por outro lado, não há combates reais; caso eu cometa um erro grosseiro (esqueça de apertar a tecla de soltar a magia de proteção antes de me lançar ao combate), meu elfo será estripado, morto, deixará o corpo sem vida no chão. Ao menos até que eu decida ressuscitar num cemitério próximo. Eu estarei aqui, ainda, como estive mesmo antes de bater as armas. Posso renegar tudo o que sei, posso aprender novas profissões, posso apagar meu personagem da minha conta e ainda estarei aqui, inteiro.

Nesse sentido é que tanto os jogos eletrônicos (neste caso, os RPGs de mundos online persistentes - MMORPGs - embora a acepção possa ser estendida de forma mais ampla) quanto as redes sociais dão forma a demandas, necessidades, aspirações que reverberam em todos nós, de alguma forma. É por isso que eles existem e fazem sucesso.

O danoso desses RPGs é o que possibilita que eles existam e sejam aproveitados - o mundo, dentro de um RPG eletrônico está pronto e acabado e o seu papel nele é preestabelecido: você não vai inventar nada, você é um convidado a passar por lá e jogar de acordo com as regras. E é nesse ponto que as críticas aos jogos eletrônicos em geral, aos RPGs, ao diabo, falham: esses mecanismos se estendem muito mais além. Imagina aí você ter um dia extremamente frustrante, cansativo, você ter de lidar com um monte de gente chata, apressada, frustrada, recalcada, vazia, que não vai a lugar algum, todas essas pessoas na mesma situação que você pegando o engarrafamento pra voltar pra casa. A lógica desses dias pruma praia de areia laranja em Azeroth é semelhante, os sentimentos são opostos.

O problema dessas coisas não é o escapismo. Desde que nós inventamos a nossa mente, por assim dizer, nós temos algum refúgio secreto que carregamos sempre conosco, dentro do crânio. O inquietante, o verdadeiramente pobre sobre essas formas de utilização de tempo é que elas são, funcionalmente, o mesmo que ficar se olhando no espelho. Dragões não têm nada a ver com isso. A diferença é imagética, o sentido é o mesmo. 

Alguém que fica dedica muito tempo da sua vida, mais do que se julgue necessário, para upar um personagem num jogo, conseguir equipamentos épicos, não difere muito, em termos de significado, entre uma pessoa que passa o dia arrumando a página do seu perfil, mudando preferências, upando fotos ou simplesmente vagueando sem propósito. Ou de uma pessoa que não faz nada disso, mas compra um objeto de decoração pra colocar na casa, quase todo dia. Os perfis de personagens virtuais, junto com as salas de estar vazias e ainda assim atulhadas de objetos inanimados estão espalhadas por aí, pra falar toda a verdade sobre nós e o que nós fazemos.


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[1]: paralelos com o conceito de mais-valia são encorajados aqui.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Querida L.,

Lembro agora das flores do seu jardim, de como nós estávamos passando por entre as pequenas vielas inundadas por galhos e folhas verdes e uma população densa e variada de flores, das quais eu passo do lado como um tolo respeitoso. Lembro da tarefa que costuma ser incumbida aos jardins na literatura - a de ser um espaço alegórico pra lidar do único problema verdadeiros dos seres humanos, que é o tempo. Dois exemplos de cabeça que eu cito pra ilustrar é o lar de Destino, em Sandman, que é um labirinto de sebe que vai dar num grande (num infinito) jardim, e o Jardim dos caminhos que se bifurcam, de Borges, que contém nele uma multitude de possibilidades, infintas, talvez todas.

Poderíamos passar um dia todo por lá; não em Borges, que muitas vezes é um chato pedante, mas no seu jardim. Gosto de seu jardim, precisamente porque é pequeno. E isto não é fazer pouco; todos os jardins, na realidade, o são, quando você se vê dentro. Não deve ser à toa que o sonho e a literatura são os únicos lugares onde se pode encontrar jardins grandes, infinitos. Se eu estivesse num desses, acordado, não seria meu, seria de algo, de alguém. Um jardim grande, a se perder de vista já não é mais um jardim, é o mundo.

Todo jardim tem a impressão de guardar segredos sussurrados numa língua que não temos acesso, por um povo que aprendeu a morrer. Se você for pegar pra ver, um jardim pode ser um espaço de caminhos que se bifurcam, assim como uma planta cheia de galhos, um galho cheio de ramos menores, um ramo cheio de folhas, um folha que, se você olhar bem de perto, possui ranhuras bifurcadas, que reproduzem - ou seguem a mesma lógica - do desenho das folhas, dos ramos, dos galhos, das árvores e do jardim.

Estou aqui falando apenas de espaço e de mundo, de folhas e adubo e de objetos. Do quanto isso tudo parece pequeno. Perdoe o exagero, é que eu imagino essas coisas, andando com você pelo jardim.


Seu V.