quinta-feira, 16 de maio de 2013

Sobre os conselhos terríveis que nos dão.

Um dos piores: seja você mesmo(a).



Dizer pra você ser você mesmo é, no mínimo, infrutífero. Você já é a si mesmo. Você não pode deixar de ser a si mesmo. E assim, sendo a si mesmo não ajudou muito até agora na sua situação. Muito provavelmente, é justamente pelo fato de você ter sido você mesmo que você está onde está agora. Outra pessoa estaria em outro lugar, de outra forma.

Numa acepção menos radical, mais simbólica, "ser você mesmo" equivale a dizer, com poucas palavras, "seguir os seus próprios referenciais". Mas não diz: ser você mesmo é seguir os seus referenciais, mas seguir os referenciais não é ser a si mesmo. Ainda assim, isso supõe que os referenciais, assim como a sua identidade, sejam estáticos, imutáveis.

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Se alguém não está sendo a si mesmo(a), quem ele(a) está sendo?
"Uma propaganda enganosa, uma falsidade, um embuste. Tudo menos ela mesma."

E eu digo: sim, mas o embuste não existe? Tanto quanto uma verdade. Uma pessoa falsa, recalcada é justamente isso. Quem disse que falsidade não existe no mesmo nível que a verdade acidentalmente alguma coisa aí. Essa simplificação de verdade faz exatamente isso que eu fiz na sentença anterior: suprime, sopesa, altera, elimina um termo essencial para a compreensão.

* * *

Numa das aulas da faculdade, há muito tempo atrás, quando o professor falou de uma aceitação incondicional, um dos princípios de uma determinada linha teórica na Psicologia, eu perguntei:

- Mas e se, por acaso, a pessoa vier até o seu consultório pra ficar mentindo descaradamente, o que é que eu faço? Como é que pode haver terapia, se nada que ela diz corresponde aos dados da realidade dela?
- Ora - respondeu o professor - você vai escutar ela mentindo do mesmo jeito que vai escutar ela falando a verdade. O importante não é saber se ela está falando a verdade ou não, o importante é que a mentira é a mentira dela. (1)

E, de certo modo, você, em toda a sua falsidade e enganação, nunca vai escapar de ser a si mesmo.

Há muito mais nuanças em todas as pessoas do que a norma costuma ver. O bajulador e o honesto muitas vezes são chamados pelo mesmo nome. Muitas vezes o cidadão de bem e o sádico ocupam turnos dentro de um corpo, o agressor doméstico e o bom profissional se revezam. Não adianta dizer que apenas um lado existe: não somos unidimensionais.

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E qual a alternativa, então?
Não diga nada. Ou diga, se for pra dizer, diga o seguinte: seja o que você já é. Talvez isso não seja o que ela queira ouvir, mas não é menos verdade.






1: Evidente que esta conversa não se deu ipsis litteris; o autor - no caso, eu - tentou preservar o máximo de sentido, mas não garante que os dados da realidade correspondam ao da letra.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Um aviso.

É importante atentar para o palavreado que às vezes você carrega na cabeça.

Seja feliz. Encontre um amor. Tenha uma carreira. Tenha um bocado de amigos. Seja valorizado. Seja lido. Seja reconhecido. Seja bom. Olhe para ela. Ele falou com você: responda. Pare de comer merda. Fume menos. Beba menos. Minta menos. Lembre daquilo. Vá lá duma vez. Diga alguma coisa. Seja humilde. Lembre-se. Não estrague tudo de novo.

Se você não der conta, cada uma dessas sentenças vai exigir tempo, corpo e vida para si, e não há nenhum deles o suficiente para todas.

E, além do mais, você precisa saber quais dessas sentenças são as suas.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Aeroaracnocinofobia.

um dos modos mais usados de se falar sobre o horror: piada.


Uma das coisas interessantes acerca dos nossos medos é que, assim como nossos desejos, eles são únicos, incombináveis.  Todos os medos combináveis são outra coisa.

Quer saber? Já usei esse exemplo em outra ocasião: é muito comum o horror frente a um monstro e frente a um espírito, um fantasma. Não é muito comum o horror frente ao espírito de um monstro.

Uma mantícora, uma criatura mitológica, compreende de um corpo de leão com uma cabeça de homem: ela sintetiza o que há de misterioso e inacessível dentro de um homem e dentro de um leão. Por esta razão, a mantícora é uma aberração, e nem mesmo os que lhe poderiam ser simpáticos não o são por reconhecimento de uma igualdade. A figura da mantícora inspira estranhamento, mas não porque ela é uma mantícora. Não há uma humanidade na mantícora - ao mesmo tempo, há alguma humanidade na mantícora.

Os teóricos da psicologia profunda, que estudam o inconsciente, o desconhecido na constituição de nossa psique, atestam, seguindo vertentes diferentes, a importância das reações de medo e horror como expressão desse "algo" que nos bate à porta. Ao se falar do aspecto projetivo na constituição do sujeito segundo Jung, poderia se pensar: se este "algo" terrível com o qual me deparo não sou eu (pois eu não sou terrível, não me acredito terrível), o que é esse algo?
E mais importante: por que ele parece vir até mim?

terça-feira, 9 de abril de 2013

"O problema é que ele sou eu".

Se você só atrai vampiro e lobisomem, o problema não é que o mundo é habitado por criaturas fantásticas, o problema é você.

ou:

Nem todas as mulheres são loucas: existem também as não-loucas. Nenhuma delas lhe interessou.

dá no mesmo. escolha o seu destino.

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É o mesmo funcionamento com duas particularidades: se você não pensa no outro como uma pessoa com identidade própria, separada dos seus anseios/medos/desejos, decorre que você vai achar o outro terrível por que ele fez alguma coisa com você que não podia. Mas, antes de tudo, antes de ele fazer (ou poder fazer), era preciso que você estivesse lá.

"O problema é que ele sou eu". Você nunca poderia ter dito isto. Nunca é fácil assim.

A pergunta que importa, que vai além desse relacionamento e de todos os outros não é por que vocês estão brigando, mas o que aconteceu para que vocês dois estivessem juntos até agora, até brigarem.
Não é como está agora, mas como se construiu, como permanece.

Dizer nada não vale.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sobre o Super-Homem.

não apenas arte.


É, no mínimo, curioso que digam que esse novo filme do Super-Homem tenha uma "pegada realista". Quer dizer, o rapaz veio do Planeta Krypton, voa, é mais rápido que uma bala, mais forte que uma locomotiva, tem visão de raio-X... completamente realista. Oh, e ele é órfão de pai e mãe. Criado por pais terráqueos adotivos, que lhe deram forte educação moral e o ensinaram a respeitar e valorizar o nosso mundo. Viu? Ele tem uma humanidade.

É a grande premissa do Super-Homem: a humanidade que ele adquiriu não divide bem espaço com os seus superpoderes com os quais ele nasceu. Logo, o Super-Homem não pode assumir nenhum dos dois lugares por inteiro, o de kryptoniano e o de terráqueo.

Mas a pergunta que ninguém faz, exceto os vilões, é: porque ele iria querer isso? Ser um homem comum? O que faz valer ele abdicar dos seus poderes para se encaixar no mundo?

Seja o que você for responder, não responda. Você não sabe o que é. Está fora de sua alçada. Você não consegue amassar um pedaço de carvão com as mãos e transformá-lo em diamante. Nem tente.

* * *

Por outro lado, o que é que há do Super-Homem para nós? Qual é o fascínio que ele exerce?

Podemos olhar o nosso Super-Homem dos nossos tempos como um espelho de nós mesmos. O herói tradicional redime o seu povo através dos grandes atos; tudo o que o herói de hoje parece querer redimir é a si mesmo, através dos pequenos atos. Enquanto o Super-Homem mais antigo tentava levar uma vida dupla de jornalista e super-herói, o nosso Super-Homem vai se refugiar num barco pesqueiro. 

Toda essa grande ênfase do Super-Homem moderno com relação ao seu convívio com o mundo é o que nos é posto em primeiro plano. Isso tudo é muito necessário, mas é importante lembrar que estamos falando de super heróis, há uma outra questão que não pode ser minimizada: a de que o fato de que num mundo em que é possível existir um Super-Homem possam existir também coisas muito mais fortes que um Super-Homem.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A intenção e o conselho de Kafka.

corte o resto e se mantenha nas palavras.


Vocês podem saber de forma bem fácil o que aconteceu. Uma agência de publicidade veiculou esta peça em questão parabenizando o Dia do Ginecologista. O infortúnio foi que eles não haviam atentado para a possibilidade de que a mensagem veiculada na sua peça publicitária poderia ser tomada como algo de extremo mau gosto. Quem diria. Pauta do próximo meeting: colposcopia talvez não seja tão sexy quanto nós achávamos.

Mas voltemos. A agência soltou a peça em questão num veículo de publicidade, recebeu críticas, apagou a postagem e, através do mesmo veículo, publicou alguma coisa que ela chamou de pedido desculpas: "Pela simples razão da intenção. Não a tivemos"[1]. Ok, anotado. Muito satisfatório aos dias de hoje. Mas há alguma coisa bem grande (convenientemente) deixada de lado.

* * *

Uma das maneiras de se ler um discurso que tem no meio um belo "mas" é ler apenas o que aconteceu depois do "mas" e descartar o que veio antes - afinal tudo o que veio antes é nada mais que mera intenção, só aconteceu na cabeça de uma pessoa. O discurso em si é uma tentativa de conciliar o que uma pessoa pensa e o que sente (ex: "Eu te amo, mas..."), aquilo a que só ele tem acesso direto, com o que aconteceu de fato (ex:"...estou indo embora."), a parte pública e observável da história, a parte que existe fora da cabeça dela. Apenas uma tentativa, vale dizer. Como conciliar dois irmãos pequenos, disputando uma coisa só. O "mas", então, vem para manter o equilíbrio, mesmo que de forma instável. Vai possibilitar que sejam ditas as duas coisas concomitantemente, e passar a ilusão de que se perdeu o mínimo possível, que o mínimo possível foi embora. A ambiguidade nestas questões é a condição de que estas coisas existem, de que o status quo se mantenha (ex: que seja possível amar uma pessoa e abandoná-la ao mesmo tempo)[2].

Entenda, o problema é real, a própria pessoa realmente não consegue reconciliar as duas coisas entre si: ela não entendeu o conselho de Kafka ("na luta entre você e o mundo, favoreça o mundo.") O problema não é que ela não ame, o problema é que, para ela, ela realmente ama; ainda assim, ela realmente vai embora.

E dentre as alternativas possíveis de se desembaraçar propriamente essa ambiguidade, uma delas é negá-la. Daí o "mantenha-se nas palavras". Ficar apenas no compartilhável, no traduzível. O resto se rearranja de acordo. Ao se aplicar isto na propaganda em questão, ficamos com uma proposição interessante: invejamos vocês. O que há para invejar em vocês, o que causou tanto mal-entendido, foi o acesso a partes do corpo feminino.  E o que nos autoriza a invejar (e poder dizer isso escancaradamente) é o fato de que vocês, ginecologistas, são profissionais (e não só profissionais, estritamente profissionais).

Ora, o "mas" sobreposto a isso mascara o fato de que, na verdade, não há razão para ninguém invejar ninguém: os ginecologistas referenciados são profissionais (estritamente profissionais), não estão interessados no que o autor está; a propaganda gira em torno de si mesma o tempo todo. Tudo o que está acontecendo nesta situação é que se fala ao outro, mas tudo o que se fala ao outro não é sobre o outro.

E é isto o principal, não só desta propaganda, mas da propaganda em si: engana-se quem acha que ao público-alvo desta propaganda se limitava apenas aos ginecologistas. Por que não publicar num órgão específico, e sim no facebook? E o principal, o que ninguém notou: por que o "Nós", bem grande, em maiúsculo, no meio da sentença? O que isto tem a dizer? "Eu sei que você não gosta de pastel, mas ainda assim eu te invejo porque eu gosto de pastel. Oh, e você vive rodeado de pastel. Parabéns." Não, não é sobre os ginecologistas, de fato, nunca foi.



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[1]: Esta alguma coisa que chamaram de pedido de desculpa foi redigida por um mestre, como se pode ver na última frase: "Falhamos de não nos comunicar perfeitamente."  Só alguém que manja muito termina um pedido de desculpas fazendo a pessoa a quem ele pede dizer ou pensar "eu sei", encerrando o assunto.
[2]: O que une e possibilita o convívio destas duas acepções impossíveis é justamente um terceiro nível de discurso, mais difícil de observar, tudo aquilo que não foi dito nem para si e nem para a outra pessoa (ex: "...e a verdade é que é maravilhoso ir embora - mesmo que seja horrível.").

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O antagonista.

ali, adiante
numa relação de dois participam três.


Olá. Deixe eu me apresentar. Sou o novo namorado da mocinha. Não sou o mocinho: ele não está aqui neste momento. Foi separado de sua amada por um plano maligno de minha autoria; está lá fora, distante. Está prestes a saber que ele precisa mudar pra não perdê-la.

Enquanto isso, ela, quase linda, está aqui do meu lado; peço para que se anime um pouco, fique mais coradinha; outra coisa mais seria grosseria. Ora, vocês acham que não vejo que a mocinha não tem um pingo de desejo por mim. Acham que ignoro que a motivação dela estar comigo não é - nunca foi - amor, aquilo que vocês chamam de amor, aquilo que vocês aprenderam sobre amor na televisão e no cinema. Acham que é tudo vaidade minha, quando, na realidade, a vaidade é de vocês. Vocês não sabem de nada: vocês acham que eu sou cego e orgulhoso e não vejo o quanto ela, no fundo, ama, deseja aquele outro rapaz. É claro que sei. Qualquer um saberia: é por isso que estamos aqui.

Eu sou - não, melhor-, estou neste lugar de contraponto. O outro rapaz, o que é o melhor para ela (se alguma coisa desse tipo existir), brilha em comparação a mim. E não seria por menos... tudo o que ele é e o que ele faz foi planejado para que vocês gostassem dele, se identificassem com ele. Para que, ao menos num instante, reconhecessem alguma coisa de si nele. Vocês amam igual a ele, vocês sofrem igual a ele - mas nem percebem que tudo o que ele é foi feito sobre medida para vocês? O mocinho é completamente artificial. O mocinho é uma roupa, é um boneco. Um espelho. Ele está lá fora, sem ela, neste momento, eternamente em perda, suspenso da responsabilidade e do tédio de manter algo. Só a dor, e a perda, claro. Ele vai ter que mudar. 

Daqui a uns instantes ele vai chegar aqui, e junto dele vai chegar a mudança. Meu tempo já não é tão longo, preciso da ajuda de vocês. Gostaria que vocês imaginassem, uma história, é mais ou menos a seguinte:

Rapaz conhece garota. Eles se estranham. Eles se descobrem. Eles se apaixonam. Alguém dos dois foge, se ausenta. Tragédia. Ele sente que precisa provar o seu valor. Ele prova. Cartase. Fim.

Já ouviram esta história, inúmeras vezes? Eu estou nela, condenado a assisti-la, repetidamente, à revelia. Sou tão coadjuvante quanto, por exemplo, a amiga da mocinha, e não é à toa que às vezes eu termino formando um par amoroso com ela.

Mas, veja, veja só isso. Aí vem o mocinho, já escuto a confusão que ele causa do lado de fora. Tudo o que peço é que vocês olhem pra mim e digam, me salvem, me tirem do lugar de onde eu cumpro minha eterna danação, apenas respondendo isso: 

Poderia ter sido eu, não? No lugar dele?
 
Pensamos em todo tipo de coisas bonitas nessa hora, menos no fato de não escolher por quem somos amados. Mesmo que a história se repetisse. Eu disse antes que a mudança está vindo, mas a verdade é que não há mudança; é tudo um ciclo que nunca acaba. Em outros lugares, não há este fim - isto que chamam de fim é só o começo.