Parece que sempre descrevemos o sonho como algo que se antepõe à realidade — algo que assemelha-se à realidade, fica à sua borda, talvez entre um pouquinho nela — mas não a defina, de todo. Ora, suponha-se que temos um homem, e este homem esteja perseguindo um objeto inanimado — um cachecol esvoaçando, por exemplo —, pelos cômodos de uma casa, que é onde está; todo este percurso leva-os, homem e objeto para o quintal na parte de trás da casa, onde há uma piscina, aparentemente sem fundo. O homem a contempla por um instante e mergulha atrás do cachecol, que sumiu na escuridão da piscina.
Suponhamos, por fim, que o homem acorda e eu encerro meu relato com a expressão batida de que "tudo não passava de um sonho".
O monge Chuang Tzu, segundo conta o koan, ao acordar dum sonho em que havia sonhado que era uma borboleta se pôs em reflexão se ele, de fato, seria uma borboleta que estaria naquele exato momento sonhando em que era um homem.
É exatamente sobre esta fina linha, quase translúcida, a qual Tzu evidencia de forma magistral, que parecem se localizar os sonhos: num momento presente que não é exatamente este momento aqui. Homem ou borboleta, dormindo ou mergulhando, o sonho é confusão, charada, enigma, mistério.
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O enigma se estende além. Assim também tomamos os sonhos como futuro.
Sonhos são nossos projetos, nossas ideias, aspirações, desejos. Podem ser partilhados, podem ser restritos. Podem indicar o caminho a seguir, podem abrir o problema, podem denunciá-lo. São também as nossas angústias, os medos, os temores, a sombra enorme daquilo que já estava no escuro e que não conseguimos olhar por muito tempo. São tidos como prenúncios de um futuro que nos eleva ou nos esmaga, parecem evocar boa-fé, loucura, desgraça, esperança, infortúnio.
Não é de se espantar que se constate que, dadas estas implicações, houve ao longo da história da humanidade muito empenho em interpretar e transmitir o que os sonhos parecem nos dizer. Os xamãs têm sonhos diferenciados dos sonhos tidos pelo resto da tribo, "grandes sonhos", que se debruçam sobre o coletivo. Daniel, o profeta, é tido (às vezes jocosamente, às vezes não) como um dos primeiros psicanalistas, posto que exerceu, dentre outras coisas, a função de interpretar os sonhos do rei. Não pôde evitar que caísse em desgraça, apenas comunicou-lhe a natureza do sonho.(1)
Outro fenômeno análogo que perpassa a história da humanidade, em conjunto com os sonhos, é a loucura. O chamado mundo da Lua frequentemente é pareado com o sonho(2). Assim como as produções psíquicas na esquizofrenia (delírios e alucinações) estão firmemente calcadas na realidade do sujeito(3), os sonhos, mesmo os mais aterradores, nos causam impressões e parecem falar diretamente sobre a nossa vida. Podemos, assim nos endereçar a eles, inclusive os que nos sejam aterrorizantes ou demasiado confusos.
Colocando de outro modo, mesmo que, afinal de contas, tudo não passasse de um sonho, podemos sempre ter uma reação de alívio grande, ou, quem sabe, de tristeza ao constatarmos que afinal tudo não passava de um sonho.
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cena de "A origem" (2010), dirigido por Christopher Nolan
Nossa sociedade, que não raramente costuma tratar estes fenômenos de forma unilateral, estanca aí, ao falar de sonhos. Não é de todo uma escolha ruim; é cauteloso considerar todas as hipóteses — inclusive a de que os sonhos não sejam nada.
Mas, entre o futuro, a ficção e o nada ainda há outro desdobramento, outro lugar de onde podem vir os sonhos, e este lugar é o passado. É aí que se encontra, na minha opinião, uma das grandes originalidades que estes autores, Freud e Jung, empreenderam eu suas respectivas teorias, a de tomar em consideração estas questões para o homem moderno. Uma assertiva desafiadora, até paradoxal, estranha à nossa cultura tão avessa a esse tipo de coisa: imaginar que, do mesmo modo que viajamos para entender nossa terra natal, podemos também sonhar para compreender o passado.
Antes se pensava que as crianças, por não terem o aparelho psíquico maturado, não podiam sonhar, ou que sonhavam sonhos inconclusos. De toda forma, esta opinião não se limitava apenas aos sonhos das crianças, mas a tudo o que dizia respeito a elas. A experiência clínica de Jung, contudo, relata(4) sonhos infantis não apenas assustadoramente nítidos, mas também com paralelos entre outras culturas. Isso leva à hipótese: não sonhamos apenas com nosso passado, mas talvez com o passado em si.
Desta forma, sonhar com o passado em si implica em considerar o sonho como algo vivo.
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Mas então, o que diferenciaria os sonhos? Como entendê-los, nas múltiplas faces que eles apresentam? É sabido que os produtos que emergem do inconsciente (dentre os quais se localizam os sonhos) não vêm com manual de instrução. Ainda assim, podemos entrever uma linguagem neles(5). Talvez nisso esteja a tentativa mais sofisticada de relacionarmo-nos com os nossos sonhos — uma tentativa que não é propriamente moderna, mas sempre reveladora.
1: Daniel, cap. 04. Exemplo: http://www.bibliaonline.com.br/acf/dn/4
2: um paralelo que recomendo é o feito pelo Neil Gaiman, na sua obra mais conhecida, Sandman: o único irmão que aceita acompanhar Delírio na busca por Destruição é ninguem menos que o vaidoso Sonho (Vidas Breves). Há também outra aparição de Sonho durante o capítulo de Delírio no último encadernado, Noites sem fim.
3: um fato interessante sobre as alucinações psicóticas: elas ativam as áreas correspondentes às sensações no cérebro da mesma forma que nos fenômenos ditos normais. Uma pessoa que ouve vozes não apenas finge que ouve — o cérebro dela funciona do mesmo jeito que o meu e o seu quando ouve alguma voz, as mesmas áreas relacionadas à audição e compreensão são ativadas.
4: há um resumo do caso no capítulo "Chegando ao inconsciente" do O homem e seus símbolos. Mais detalhes na análise do mesmo caso feita por Jolande Jacobi na segunda parte de seu livro Complexo, arquétipo, símbolo.
5: Jung compara o seu método de interpretação dos sonhos a um método filológico. Para entender o texto, temos de olhar os paralelos entre o texto e o que o circunda. Essa explanação é mencionada, por exemplo, numa das Conferências de Tavistock (Fundamentos de psicologia analítica). Encontrada de forma mais apropriada ao longo da obra num dos textos do volume 16/2, aqui no Brasil, Ab-reação, análise de sonhos, transferência.







