quarta-feira, 14 de maio de 2014

Passado, futuro, ficção, nada: considerações sobre o sonho.



Gustav Klimt - "A virgem" (1913)

Parece que sempre descrevemos o sonho como algo que se antepõe à realidade — algo que assemelha-se à realidade, fica à sua borda, talvez entre um pouquinho nela — mas não a defina, de todo. Ora, suponha-se que temos um homem, e este homem esteja perseguindo um objeto inanimado — um cachecol esvoaçando, por exemplo —, pelos cômodos de uma casa, que é onde está; todo este percurso leva-os, homem e objeto para o quintal na parte de trás da casa, onde há uma piscina, aparentemente sem fundo. O homem a contempla por um instante e mergulha atrás do cachecol, que sumiu na escuridão da piscina.

Suponhamos, por fim, que o homem acorda e eu encerro meu relato com a expressão batida de que "tudo não passava de um sonho".

O monge Chuang Tzu, segundo conta o koan, ao acordar dum sonho em que havia sonhado que era uma borboleta se pôs em reflexão se ele, de fato, seria uma borboleta que estaria naquele exato momento sonhando em que era um homem.

É exatamente sobre esta fina linha, quase translúcida, a qual Tzu evidencia de forma magistral, que parecem se localizar os sonhos: num momento presente que não é exatamente este momento aqui. Homem ou borboleta, dormindo ou mergulhando, o sonho é confusão, charada, enigma, mistério.


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O enigma se estende além. Assim também tomamos os sonhos como futuro.

Sonhos são nossos projetos, nossas ideias, aspirações, desejos. Podem ser partilhados, podem ser restritos. Podem indicar o caminho a seguir, podem abrir o problema, podem denunciá-lo. São também as nossas angústias, os medos, os temores, a sombra enorme daquilo que já estava no escuro e que não conseguimos olhar por muito tempo. São tidos como prenúncios de um futuro que nos eleva ou nos esmaga, parecem evocar boa-fé, loucura, desgraça, esperança, infortúnio.

Não é de se espantar que se constate que, dadas estas implicações, houve ao longo da história da humanidade muito empenho em interpretar e transmitir o que os sonhos parecem nos dizer. Os xamãs têm sonhos diferenciados dos sonhos tidos pelo resto da tribo, "grandes sonhos", que se debruçam sobre o coletivo. Daniel, o profeta, é tido (às vezes jocosamente, às vezes não) como um dos primeiros psicanalistas, posto que exerceu, dentre outras coisas, a função de interpretar os sonhos do rei. Não pôde evitar que caísse em desgraça, apenas comunicou-lhe a natureza do sonho.(1)

Outro fenômeno análogo que perpassa a história da humanidade, em conjunto com os sonhos, é a loucura. O chamado mundo da Lua frequentemente é pareado com o sonho(2). Assim como as produções psíquicas na esquizofrenia (delírios e alucinações) estão firmemente calcadas na realidade do sujeito(3), os sonhos, mesmo os mais aterradores, nos causam impressões e parecem falar diretamente sobre a nossa vida. Podemos, assim nos endereçar a eles, inclusive os que nos sejam aterrorizantes ou demasiado confusos.

Colocando de outro modo, mesmo que, afinal de contas, tudo não passasse de um sonho, podemos sempre ter uma reação de alívio grande, ou, quem sabe, de tristeza ao constatarmos que afinal tudo não passava de um sonho.


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cena de "A origem" (2010), dirigido por Christopher Nolan

Nossa sociedade, que não raramente costuma tratar estes fenômenos de forma unilateral, estanca aí, ao falar de sonhos. Não é de todo uma escolha ruim; é cauteloso considerar todas as hipóteses — inclusive a de que os sonhos não sejam nada.

Mas, entre o futuro, a ficção e o nada ainda há outro desdobramento, outro lugar de onde podem vir os sonhos, e este lugar é o passado. É aí que se encontra, na minha opinião, uma das grandes originalidades que estes autores, Freud e Jung, empreenderam eu suas respectivas teorias, a de tomar em consideração estas questões para o homem moderno. Uma assertiva desafiadora, até paradoxal, estranha à nossa cultura tão avessa a esse tipo de coisa: imaginar que, do mesmo modo que viajamos para entender nossa terra natal, podemos também sonhar para compreender o passado.

Antes se pensava que as crianças, por não terem o aparelho psíquico maturado, não podiam sonhar, ou que sonhavam sonhos inconclusos. De toda forma, esta opinião não se limitava apenas aos sonhos das crianças, mas a tudo o que dizia respeito a elas. A experiência clínica de Jung, contudo, relata(4) sonhos infantis não apenas assustadoramente nítidos, mas também com paralelos entre outras culturas. Isso leva à hipótese: não sonhamos apenas com nosso passado, mas talvez com o passado em si.

Desta forma, sonhar com o passado em si implica em considerar o sonho como algo vivo.


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Mas então, o que diferenciaria os sonhos? Como entendê-los, nas múltiplas faces que eles apresentam? É sabido que os produtos que emergem do inconsciente (dentre os quais se localizam os sonhos) não vêm com manual de instrução. Ainda assim, podemos entrever uma linguagem neles(5). Talvez nisso esteja a tentativa mais sofisticada de relacionarmo-nos com os nossos sonhos — uma tentativa que não é propriamente moderna, mas sempre reveladora.



1: Daniel, cap. 04. Exemplo: http://www.bibliaonline.com.br/acf/dn/4
2: um paralelo que recomendo é o feito pelo Neil Gaiman, na sua obra mais conhecida, Sandman: o único irmão que aceita acompanhar Delírio na busca por Destruição é ninguem menos que o vaidoso Sonho (Vidas Breves). Há também outra aparição de Sonho durante o capítulo de Delírio no último encadernado, Noites sem fim.
3: um fato interessante sobre as alucinações psicóticas: elas ativam as áreas correspondentes às sensações no cérebro da mesma forma que nos fenômenos ditos normais. Uma pessoa que ouve vozes não apenas finge que ouve — o cérebro dela funciona do mesmo jeito que o meu e o seu quando ouve alguma voz, as mesmas áreas relacionadas à audição e compreensão são ativadas.
4: há um resumo do caso no capítulo "Chegando ao inconsciente" do O homem e seus símbolos. Mais detalhes na análise do mesmo caso feita por Jolande Jacobi na segunda parte de seu livro Complexo, arquétipo, símbolo.
5: Jung compara o seu método de interpretação dos sonhos a um método filológico. Para entender o texto, temos de olhar os paralelos entre o texto e o que o circunda. Essa explanação é mencionada, por exemplo, numa das Conferências de Tavistock (Fundamentos de psicologia analítica). Encontrada de forma mais apropriada ao longo da obra num dos textos do volume 16/2, aqui no Brasil, Ab-reação, análise de sonhos, transferência.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Pontuações em cima de um vídeo moderno e contemporâneo.

 35, argentina, solteira, judia. Nenhuma dessas palavras ela inventou.
um mundo bom, com apenas quatro caminhos que se misturam



  • Múltiplos lugares me disseram que o vídeo foi "viral". O que é viral? Talvez a própria definição de "múltiplos lúgares" seja a culpada disto tudo. Por "múltiplos lugares", me refiro a facebook, página do N.Y. times, blog de cultura. Vê-se: quanta pluridade. Mais ou menos igual a "este lado" e "aquele lado" da piscininha.
  • Claro, talvez haja muito no fato de filmar os namoros e guardar as fitas mesmo após os términos. Mas por outro lado talvez não haja nada de errado em filmar a vida por si, usar como forma de expressão pessoal. Se não era pra filmar a própria vida, do que é que ela iria falar, então? Das conquistas do Partido? 
  • Bom lembrar que isto é só um filme: a protagonista filma muitas coisas, inclusive a própria vida. O apartamento de tumblr não veio do nada: ela trabalha como assistente de direção, ela passa o dia filmando outras coisas.
  • O que me leva ao ponto: o resto da vida dela não aparece porque não cabe na narrativa. O vídeo todo é um exercício de identidade. Tudo serve a um propósito, o de ilustrar o que ela é, ou quer ser, e nunca o que ela fez ou não.
  • A matéria original que acompanha o vídeo fala sobre a solidão contemporânea. Mas a solidão não é um fenômeno contemporâneo: talvez muito mais a forma com que lidamos (ou não lidamos) com ela é que caracteriza os nossos tempos do que a solidão em si.
  • A solidão é talvez evidenciada, percebida. É uma questão mais de percepção do que de objeto. Temos muitas maneiras de se expressar ao nosso alcance — e talvez achemos que não deveríamos estar sós.
  • Se isso também lhe exime de ir ao casamento das amigas, bom pra você. Mas ainda assim, a conta não fecha. Aliás, muito estranha, uma vida — fora dos vídeos — que fechasse 100%.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Sobre os conselhos terríveis que nos dão.

Um dos piores: seja você mesmo(a).



Dizer pra você ser você mesmo é, no mínimo, infrutífero. Você já é a si mesmo. Você não pode deixar de ser a si mesmo. E assim, sendo a si mesmo não ajudou muito até agora na sua situação. Muito provavelmente, é justamente pelo fato de você ter sido você mesmo que você está onde está agora. Outra pessoa estaria em outro lugar, de outra forma.

Numa acepção menos radical, mais simbólica, "ser você mesmo" equivale a dizer, com poucas palavras, "seguir os seus próprios referenciais". Mas não diz: ser você mesmo é seguir os seus referenciais, mas seguir os referenciais não é ser a si mesmo. Ainda assim, isso supõe que os referenciais, assim como a sua identidade, sejam estáticos, imutáveis.

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Se alguém não está sendo a si mesmo(a), quem ele(a) está sendo?
"Uma propaganda enganosa, uma falsidade, um embuste. Tudo menos ela mesma."

E eu digo: sim, mas o embuste não existe? Tanto quanto uma verdade. Uma pessoa falsa, recalcada é justamente isso. Quem disse que falsidade não existe no mesmo nível que a verdade acidentalmente alguma coisa aí. Essa simplificação de verdade faz exatamente isso que eu fiz na sentença anterior: suprime, sopesa, altera, elimina um termo essencial para a compreensão.

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Numa das aulas da faculdade, há muito tempo atrás, quando o professor falou de uma aceitação incondicional, um dos princípios de uma determinada linha teórica na Psicologia, eu perguntei:

- Mas e se, por acaso, a pessoa vier até o seu consultório pra ficar mentindo descaradamente, o que é que eu faço? Como é que pode haver terapia, se nada que ela diz corresponde aos dados da realidade dela?
- Ora - respondeu o professor - você vai escutar ela mentindo do mesmo jeito que vai escutar ela falando a verdade. O importante não é saber se ela está falando a verdade ou não, o importante é que a mentira é a mentira dela(1)

E, de certo modo, você, em toda a sua falsidade e enganação, nunca vai escapar de ser a si mesmo.

Há muito mais nuanças em todas as pessoas do que a norma costuma ver. O bajulador e o honesto muitas vezes são chamados pelo mesmo nome. Muitas vezes o cidadão de bem e o sádico ocupam turnos dentro de um corpo, o agressor doméstico e o bom profissional se revezam. Não adianta dizer que apenas um lado existe: não somos unidimensionais.

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E qual a alternativa, então?
Não diga nada. Ou diga, se for pra dizer, diga o seguinte: seja o que você já é. Talvez isso não seja o que ela queira ouvir, mas não é menos verdade.






1: Evidente que esta conversa não se deu ipsis litteris; o autor - no caso, eu - tentou preservar o máximo de sentido, mas não garante que os dados da realidade correspondam ao da letra.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Um aviso.

É importante atentar para o palavreado que às vezes você carrega na cabeça.

Seja feliz. Encontre um amor. Tenha uma carreira. Tenha um bocado de amigos. Seja valorizado. Seja lido. Seja reconhecido. Seja bom. Olhe para ela. Ele falou com você: responda. Pare de comer merda. Fume menos. Beba menos. Minta menos. Lembre daquilo. Vá lá duma vez. Diga alguma coisa. Seja humilde. Lembre-se. Não estrague tudo de novo.

Se você não der conta, cada uma dessas sentenças vai exigir tempo, corpo e vida para si, e não há nenhum deles o suficiente para todas.

E, além do mais, você precisa saber quais dessas sentenças são as suas.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Aeroaracnocinofobia.

um dos modos mais usados de se falar sobre o horror: piada.


Uma das coisas interessantes acerca dos nossos medos é que, assim como nossos desejos, eles são únicos, incombináveis.  Todos os medos combináveis são outra coisa.

Quer saber? Já usei esse exemplo em outra ocasião: é muito comum o horror frente a um monstro e frente a um espírito, um fantasma. Não é muito comum o horror frente ao espírito de um monstro.

Uma mantícora, uma criatura mitológica, compreende de um corpo de leão com uma cabeça de homem: ela sintetiza o que há de misterioso e inacessível dentro de um homem e dentro de um leão. Por esta razão, a mantícora é uma aberração, e nem mesmo os que lhe poderiam ser simpáticos não o são por reconhecimento de uma igualdade. A figura da mantícora inspira estranhamento, mas não porque ela é uma mantícora. Não há uma humanidade na mantícora - ao mesmo tempo, há alguma humanidade na mantícora.

Os teóricos da psicologia profunda, que estudam o inconsciente, o desconhecido na constituição de nossa psique, atestam, seguindo vertentes diferentes, a importância das reações de medo e horror como expressão desse "algo" que nos bate à porta. Ao se falar do aspecto projetivo na constituição do sujeito segundo Jung, poderia se pensar: se este "algo" terrível com o qual me deparo não sou eu (pois eu não sou terrível, não me acredito terrível), o que é esse algo?
E mais importante: por que ele parece vir até mim?

terça-feira, 9 de abril de 2013

"O problema é que ele sou eu".

Se você só atrai vampiro e lobisomem, o problema não é que o mundo é habitado por criaturas fantásticas, o problema é você.

ou:

Nem todas as mulheres são loucas: existem também as não-loucas. Nenhuma delas lhe interessou.

dá no mesmo. escolha o seu destino.

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É o mesmo funcionamento com duas particularidades: se você não pensa no outro como uma pessoa com identidade própria, separada dos seus anseios/medos/desejos, decorre que você vai achar o outro terrível por que ele fez alguma coisa com você que não podia. Mas, antes de tudo, antes de ele fazer (ou poder fazer), era preciso que você estivesse lá.

"O problema é que ele sou eu". Você nunca poderia ter dito isto. Nunca é fácil assim.

A pergunta que importa, que vai além desse relacionamento e de todos os outros não é por que vocês estão brigando, mas o que aconteceu para que vocês dois estivessem juntos até agora, até brigarem.
Não é como está agora, mas como se construiu, como permanece.

Dizer nada não vale.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Sobre o Super-Homem.

não apenas arte.


É, no mínimo, curioso que digam que esse novo filme do Super-Homem tenha uma "pegada realista". Quer dizer, o rapaz veio do Planeta Krypton, voa, é mais rápido que uma bala, mais forte que uma locomotiva, tem visão de raio-X... completamente realista. Oh, e ele é órfão de pai e mãe. Criado por pais terráqueos adotivos, que lhe deram forte educação moral e o ensinaram a respeitar e valorizar o nosso mundo. Viu? Ele tem uma humanidade.

É a grande premissa do Super-Homem: a humanidade que ele adquiriu não divide bem espaço com os seus superpoderes com os quais ele nasceu. Logo, o Super-Homem não pode assumir nenhum dos dois lugares por inteiro, o de kryptoniano e o de terráqueo.

Mas a pergunta que ninguém faz, exceto os vilões, é: porque ele iria querer isso? Ser um homem comum? O que faz valer ele abdicar dos seus poderes para se encaixar no mundo?

Seja o que você for responder, não responda. Você não sabe o que é. Está fora de sua alçada. Você não consegue amassar um pedaço de carvão com as mãos e transformá-lo em diamante. Nem tente.

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Por outro lado, o que é que há do Super-Homem para nós? Qual é o fascínio que ele exerce?

Podemos olhar o nosso Super-Homem dos nossos tempos como um espelho de nós mesmos. O herói tradicional redime o seu povo através dos grandes atos; tudo o que o herói de hoje parece querer redimir é a si mesmo, através dos pequenos atos. Enquanto o Super-Homem mais antigo tentava levar uma vida dupla de jornalista e super-herói, o nosso Super-Homem vai se refugiar num barco pesqueiro. 

Toda essa grande ênfase do Super-Homem moderno com relação ao seu convívio com o mundo é o que nos é posto em primeiro plano. Isso tudo é muito necessário, mas é importante lembrar que estamos falando de super heróis, há uma outra questão que não pode ser minimizada: a de que o fato de que num mundo em que é possível existir um Super-Homem possam existir também coisas muito mais fortes que um Super-Homem.