segunda-feira, 28 de maio de 2012

Apontamentos sobre a psiquê.


Há uma noção de real: um mundo à porta do observador, um lugar onde não podemos alcançar. Um mundo sem linguagem, sem cultura. Um mundo onde o absurdo não é nem ao menos absurdo. Não havia pensamento – o pensamento só pode ser proposto num lugar onde haja linguagem. Um mundo onde não estamos lá.
Há, então, o Eu nesse mundo. Nos constituímos a partir da nossa interação com o meio – há os nossos aparelhos de sensopercepção, nossos processos de captação e decodificação da realidade. Há a memória e a cognição. Há a capacidade de fabricar instrumentos e de utilizá-los, de guardá-los. Depois há a capacidade de transmitir essa fabricação de instrumentos.
A mente é o lugar onde nós criamos outros instrumentos, de segunda ordem. É a instância que talha uma ponta-de-lança que não é feita de nenhum material específico. Que transforma uma pedra num instrumento de contusão. Só que ainda não houve pedra e não houve lança.
Esses instrumentos são utilíssimos. Mas eles não podem ser utilizados contra o que é real. Para o real é necessário pedras e lanças mais sólidas.
Há a linguagem. Ela não está aqui nem ali. Ela é o inverso do real. Se o real é tudo, a linguagem é incompleta; se o real nos escapa, a linguagem diz aquilo que pode ser dito.
E o “nos”, de “nos escapa”, também não é do real. Toda consciência deriva de linguagem. Anote isso.

sábado, 31 de março de 2012

Beleza e passado.

É interessante perguntar a si, durante aqueles momentos em que você se acha a pessoa mais horrorosa da face da terra: onde e quando eu fui bonita(o)?

Quase sempre a sua resposta é um instante, que (não por acidente) passou e não volta mais, já era, c'est cassé. Sempre para trás, nunca aqui, nunca deste ponto: ou você era mais jovem ou era mais magra ou era mais musculoso. Você não era nem essas coisas todas naquela época, mas hoje, quando você vê, você não sabia que era mais bonito naquela época do que você iria ser hoje, neste momento, quando você indaga. Você era mais adolescente do que é hoje, mais cheio de vida. Você era - sim, isto é bonito, agora - mais estúpido. Você era criança naquela sua resposta e hoje você não é. Ou ainda, na intermitência de você nunca ter sido uma criança bonita (e, lembre-se que toda memória é um julgamento), você era um bebê. 

E, talvez, se nem aí estivesse a sua saudade, se não restasse nenhuma lembrança, nenhum tempo bom, a sensação é a de que há ao menos alguma coisa, algum desejo.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O terror e o vislumbre.

 ali, no fundo, onde não está.


Ontem fomos assistir A Mulher de Preto no cinema. O filme trata da adaptação de um livro de 1983: um advogado, pai, viúvo, é despachado pela sua firma a um vilarejo para cuidar dos papeis de uma antiga cliente, uma viúva, agora falecida. Não é preciso dizer que o terror (sim, o terror - o livro é de terror, o filme também) vai muito além da burocracia e do propósito do rapaz.

(Antes de tudo, uma palavra de esclarecimento: aqui, quando estou falando de filme de terror, não estou falando daqueles filmes de banho de sangue que são "encaixotados" na mesma categoria, e que, são, na verdade, manifestações bem mais rasas - os slasher movies. Terror, na minha acepção, não se limita a sangue, sustos, reflexos - embora estes filmes também tenham o que dizer sobre nós. Terror é algo muito mais demorado e perene. Pense muito mais n'O Bebê de Rosemary do que em Sexta-Feira 13, por exemplo, embora a teoria valha pra ambos.)

Pois sim, até então, tudo ia nos conformes. Havia um ar de suspense, uma hesitação. A trama ia se constituindo. O filme já estava bem nos seus 30 minutos iniciais, quando, de repente, no cinema, lotado, pôde-se entrever que havia alguma coisa fora do lugar. De início, quase que de forma imperceptível, algumas pessoas. Algumas em menor grau, outras em maior grau. Com o tempo, passando os minutos do filme, enquanto as coisas começavam a ficar fora da realidade, era possível perceber que parte do cinema estava tentando rir.

***

Uma acepção pessoal é a de que filmes de terror bons são muito mais difíceis de fazer que filmes românticos. Afinal de contas, o material dos espectadores sobre o qual ambos trabalham é muito diverso: os filmes de romance mexem sempre com alguma vontade de ser amado. O caminho clássico é o seguinte: a personagem principal conhece o seu par, se apaixona, obtém um momento íntimo de ligação, se separa, muda, melhora e volta a conquistar o seu par. Mas, de qualquer modo, nunca houve uma dúvida real. Tanto que uma das mensagens bem comuns nesse tipo de filme é: siga o seu coração. 

Se você for ver, no caso dos filmes de terror, acontece o oposto: os filmes de terror trabalham sempre com alguma coisa que não é deste mundo, mesmo que seja. Não é à toa que muito dos recursos utilizados para se aumentar a tensão do espectador são, por exemplo mostrar o que não está lá. Um canto de parede, uma porta, um corredor, um espelho... é quase certo que um filme de terror tenha um espelho em cena, nem que ele não reflita nada, assim como é quase pré-requisito que ele tenha uma cena em que se enquadre o rosto da personagem, de costas para um corredor escuro, desfocado e... com nada atrás, também. Afinal, que outra coisa pode assustar mais que aquilo que não está lá, nem deveria?

E por que, afinal, você iria pensar que estaria? Esse é o grande truque dos filmes de terror. 

Qual é aquela impressão comum que se tem ao ver todos os grandes antagonistas dos filmes de terror? Ora, o mal que há nos filmes de terror quase sempre é um mal que não nos pertence: um mal muito maior, mais vasto, mais amplo, imperdoável, inconcebível em sua totalidade. Um mal que não é nosso e que, portanto, não teria como nos obedecer. Que só poderia ser adiado: um mal que, apesar de nossas tentativas, no final das contas, seria um mal insolúvel. Ou você acha que você poderia negociar com a Samara? Pedir licença ao Pazuzu?

Pode notar, caro leitor, que tudo com o que nos assustamos mais nos filmes de terror tem a ver ou com monstros ou com espíritos - mas nunca com espíritos de monstros. Todas as exceções desta regra têm um rosto humano. Pazuzu é o fantasma de um monstro (e na verdade, na vida real, é um deus antigo), é verdade - mas o que assusta nele é que ele possui uma menina.

Esta é a coisa mais interessante de todos os filmes de terror, é isto que ele tem a dizer das ficções de nós mesmos e é justamente sobre esta ótica não é surpreendente que nós vamos ao cinema, assistimos os filmes, e, ainda assim, no meio da sessão, temos o ímpeto de evitá-los, virar o rosto ou rir, e tentar evitar daquilo que está à frente: a representação do mal, ainda assim uma representação, ainda assim um mal que assusta, um mal com o qual não podemos, em última instância, lidar. Caso contrário, nós teríamos alguma coisa dele em nós mesmos. Da mesma forma que alguém só é taxado de esquizofrênico se não se comportar direito, ou da mesma forma que consideramos que alguém que mate outras pessoas tem alguma coisa de inumano. Não poderíamos, não estaríamos preparados a pensar de outra forma, e é isto o principal componente do horror da coisa.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Mulherzice #2.

Ela explicou a ele duas vezes e ele ainda não entendeu. Não do jeito dele.
- Não é suficiente - ela diz. - Não basta.
- E o que que bastaria?
- Se ele soubesse o que eu quero.
O silêncio entre os dois teve a duração de um suspiro.
- Basicamente, você quer que ele demonstre o amor dele por você, não perante os outros - muito pelo contrário, se ele demonstrar para os outros o amor que ele sente por você vai causar uma calamidade mundial -, mas só e somente pra você mesma. Faz sentido?
- Um pouco.
- Aquele amor que é só seu.
- Isso.
Passaram um tempo sem dizer qualquer coisa um ao outro.
- Você quer, então, que ele prove a você que ele acha que você vale a pena. - ele concluiu.
- É.
- Mais do que qualquer outra pessoa.
- É.
- E você já não sabe que ele gosta de você?
Ela interroga ele com um olhar e ele se sente um pouco estúpido em ter peguntado.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Teste de múltipla escolha.


  mais ou menos como a vida.


1) Se você pudesse escolher, em cada par, somente uma característica, quais você escolhia? Preste bem atenção, que os resultados escolhidos vão dizer muito do que você é:
a) Verdadeiro/ Fiel
b) Intimista/ Sensitivo
c) Vaidoso/ Resiliente
d) Criativo/ Relaxado

Para responder às questões 2 e 3, utilize-se da seguinte situação:
Suponha que você seja um ser humano que morasse num lugar não muito grande, não muito pequeno, mas lotado de outros seres humanos. Para se ter uma ideia, seria possível, nesse lugar, percorrer toda a extensão, mas seria muito improvável de você ver ao menos uma vez todos os seres humanos na vida.

2) Como você iria saber que é um ser humano?

3) E se você estivesse enganado?


Para responder às questões 4 e 5, utilize-se da seguinte situação: 
Suponha que não haja final feliz que nem nos livros e filmes. Suponha, aliás, que o final, bem como diversas outras coisas, é impreciso. Que os outros seres humanos não são nem ruins nem bons.

4) Você seria ruim ou bom?

5) Como você reagiria frente a isto tudo?


* * *

6) Um homem encontra-se, anualmente, na mesma data e horário, com o espectro de si mesmo quando em plena juventude. Ele fica cada vez mais infeliz com o passar do tempo, ao ver que os conselhos que dava si mesmo, na esperança de que não cometesse os mesmos erros e passasse as mesmas dificuldades pelas quais ele passou, não surtiam efeito - embora seu espectro saísse desses encontros plenamente consciente das escolhas do futuro, ele, o do futuro, continuava a ser ele mesmo.
O homem esperava que, ao falar a si de coisas que ainda viriam na sua vida, que o ele jovem pudesse alterar o futuro homem, e que, num passe de mágica, o homem do futuro acordaria numa outra casa, com uma outra família - ou, pelo menos, na mesma casa, com os mesmos filhos barulhentos e a mesma mulher cansada, enquanto que ele seria uma pessoa completamente diferente. Isto nunca veio a acontecer.

Explique o que este homem fez de errado.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Elegia ao poeta sem talento.

Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu.
Já não caibo mais em mim.

Sinto um turbilhão de coisas, e sou tão complexo, meu Deus,
Que tenho saudades de alguma coisa que não vivi ou não ousava viver. Sei lá.
Tenho saudades de mim mesmo e outras figuras terríveis de linguagem.

Sou eu quem faço os poemas que não são para ninguém.
Se a pena e o verso são instrumentos de escultura,
Quero dar a mim - ai de mim! - o meu melhor espelho.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sobre a palmada.

se o problema não está nele, a solução também não está.

 
Por um lado, existem os pais que dizem "não, eu nunca machuquei meus filhos, uma palmadinha de vez em quando não machuca ninguém", enquanto os filhos não podem dizer nada sobre o assunto enquanto crescem. Por outro lado, se os pais não podem dar a palmada, quem é que vai dar? Como o Estado vai regular os pais, em sua maneira de regular os filhos? Até onde é possível ir? Qual é a tal da diferença entre palmadinha e castigo físico, se são dois comportamentos de bater na criança (ou aplicar correção, ou qualquer outra suavização de palavras que se preferir)? Como que se pode fazer o que a palmada fazia sem as complicações que ela causa?

Uma palmada é uma maneira rápida, quase instantânea, e eficiente de corrigir um comportamento errado. Mas ela tem uma série de características adversas:
  • não age nas causas do problema, apenas em sua manifestação final (não acaba com a vontade de "se danar", por exemplo);
  • centra no indivíduo infrator todo o problema, minimizando o ambiente (o menino que quer meter o dedo na tomada, por exemplo, pode achar que a sua curiosidade é um problema - enquanto a tomada está ali);
  • não funciona a longo prazo, o que atesta a incrível capacidade de adaptação do ser humano (que se acostuma igualmente com o que é prazeroso e o que é repulsivo);
  • distancia quem levou de quem aplicou (ou seja: não existe essa história de "reconhece por que apanhou", num nível mais profundo - a pessoa pode até saber, na sua cabeça, que errou, mas isso não tem nada a ver com dor que ela sente; dor é dor - naturalmente, quem é responsável por aplicar-lhe essa dor não vai se tornar uma companhia muito agradável);
  • acaba suprimindo outros comportamentos que não têm a ver com a história (quem apanhou por desenhar na parede pode acabar sentindo medo de desenhar no papel em branco, por exemplo). Isso leva à rigidez, estereotipação e, o que é um problema seríssimo, medo de criar soluções novas, já que
  • (essa eu deixei por último, e é a mais importante) a palmada não ensina o correto, apenas elimina o errado. 
Neste sentido, é interessante notar que a interdição da palmada realizada pela a própria Lei da Palmada (como está sendo reconhecida a mudança no ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente) efetua, em função, a mesma coisa que ela proíbe. A Lei veta o castigo físico em crianças e adolescentes, dado por quem quer que seja, mas não ensina a diferença entre castigo físico e educação. Ela procura homogenizar as formas de educar em casa. Nem mesmo cita a forma adequada de se criar, apenas dá as diretrizes gerais (liberdade, respeito, dignidade, direito de ir e vir, etc.) e atribui aos responsáveis a forma de garantir essas diretrizes.

Isso, por si, já seria algo significativo se a lei se cumprisse por si só: mesmo que o Estado manifeste a sua intenção de penetrar no círculo familiar mais íntimo, mais nuclear de seus componentes, a fim de lhes ajudar a criar seus sucessores, como ele iria fazer isso? Que lei pode atingir, regulamentar um ambiente que não é coletivo, mas particular?

A mudança, enfim, acaba se tornando mais um exemplo que atesta a posição do Brasil como um pais autossuficiente não em petróleo, mas em leis descontextualizadas: possui uma legislação moderníssima em algumas áreas e, no entanto, não percebe que leis não se aplicam a si mesmas caso sejam construídas apenas por propósitos, intenções muito justas e verdadeiras - que, no entanto, não dizem respeito à realidade social, a fundo. Não é na intenção da mudança do ECA que houve a discordância; a intenção é boa, é a de coibir casos e práticas abusivas que acontecem, e que são, como as piores práticas abusivas, invisíveis. O problema é que intenção e o que se dá na realidade não são, assim análogos. Os próprios pais que batem, agridem, machucam os seus filhos, além da conta (mas que conta?), que o digam: tudo aquilo que eles fazem, a que se sujeitam - pois também é ruim pra eles -, é pelo bem.

Ora, se é para o bem não se sabe, mas o que a experiência atesta que não existe uma espécie de não-palmada nesse mundo: se não quebra dum lado, quebra do outro. Onde, num mundo, existe mais de um sujeito, vai dar nisso: só temos à disposição um mundo só, e um mundo só é pouco para mais de uma pessoa que acha que ela em si é todo o mundo. Faz parte do processo de individuação de um sujeito, de seu crescimento pessoal, compreender isto - e é difícil. É ruim. Não poderia ser de outra forma: qualquer coisa que venha a nos dizer que não, que nós não somos a última Coca-Cola do deserto com gelo, limão e canudinho e que, além do mais, que o deserto está cheio, apinhado, de diferentes Cocas e refrigerantes, todos refrescantes à sua própria maneira, não seria lá muito fácil de entender. Mas não tem outro jeito.