- Vamos brincar de namorado?, perguntou o meninozinho.
- Vamos.
Pronto. Agora eram namorados.
- E agora, o que é que a gente faz?
- Não sei, tu é que tem que saber.
Ela demonstrava um certo aborrecimento por ele ter perguntado.
- Eu sei não.
- Tem que saber.
Ela parecia distante. Ele franziu a testa, naquele momento.
- Pois então vamos tomar sorvete.
- Não.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
domingo, 30 de outubro de 2011
O sonho do afogamento.
Ela, no sono, à deriva
em águas revoltas, profundas,
aspergindo
estrelas, e o gosto salgado
do mar enquanto que o chão
inteiro escapa aos seus pés e sobra, de lastro,
o rastro que sobe,
o clarão.
em águas revoltas, profundas,
aspergindo
estrelas, e o gosto salgado
do mar enquanto que o chão
inteiro escapa aos seus pés e sobra, de lastro,
o rastro que sobe,
o clarão.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
A história da mulher do sapo e os espelhos.

está vendo ele falar da sua natureza?
O escorpião aproximou-se do sapo que estava à beira do rio. Como não sabia nadar, pediu uma carona para chegar à outra margem.
Desconfiado, o sapo respondeu: "Ora, escorpião, só se eu fosse tolo demais! Você é traiçoeiro, vai me picar, soltar o seu veneno e eu vou morrer."
Mesmo assim o escorpião insistiu, com o argumento lógico de que se picasse o sapo ambos morreriam. Com promessa de que poderia ficar tranquilo, o sapo cedeu, acomodou o escorpião em suas costas e começou a nadar.
Ao fim da travessia, o escorpião cravou o seu ferrão mortal no sapo e saltou ileso em terra firme.
Atingido pelo veneno e já começando a afundar, o sapo desesperado quis saber o porquê de tamanha crueldade. E o escorpião respondeu friamente:
- Porque essa é a minha natureza![1]
Pobre do sapo. Eu é que chamo d'"A história da mulher do sapo", já que, claramente, assumindo que o sapo seja heterossexual e casado, é esse o ponto de vista da história. Se não é do o cônjuge, ao menos dos amigos do sapo, aquele agrupamento de bichos que sobreviveram a ele e lhe tinham em boa simpatia.
Já viu antes? Muito costumeiramente este texto é dito - se não, ao menos encenado fora dos teatros. O que acontece nele é quase como um assalto: ou já ocorreu com você ou já ocorreu com alguém conhece - ou, ainda assim, seria muito fácil de acontecer, não é? Pois é, a comparação não foi à toa.
Costuma-se utilizar-se dos mesmos caminhos para embasar um assalto e uma passada de perna. É para isto que servem as fábulas, como gêneros literários (o que se estende à literatura como um todo), para transmitir, colocar, repassar experiência passível humana. Você pode escrever alguma coisa que seja fictícia, que não tenha realmente acontecido, algo que, em certa medida, não exista; no entanto, é impossível você escrever algo que nunca pudesse ser imaginado, algo que nunca pudesse existir, algo que nunca pudesse ser inventado. Se você inventar uma palavra, atribuir-lhe a uma palavra antes inexistente um significado particular (inventei agora: schekst), ainda assim, por trás dela haveria todo um contexto, um pano de fundo anterior (mesmo que um pano de fundo transparente).
É por isto que as fábulas são tão fáceis de serem entendidas. São animais falantes, claro. Mas nos quais são impingidas características intrínsecas de quem escreveu e de quem vai ler. Embora esses animais falantes não existam, você, leitor, conseguiria imaginar um porco, uma vaca, um leão, uma raposa, existentes, não-falantes, e a eles adicionar uma voz, uma voz que não é originalmente deles, uma voz humana. Aí que está todo o segredo da ficção. Toda fábula (e, por extensão, tudo o que nós escrevemos), acima de tudo, é um espelho. E todo espelho é alguma coisa que não é a gente, mas que, olha só que coisa, aparece a gente nele. Nós falamos sobre os animais, dos animais, mas não podemos falar aos animais. Nem que a gente tentasse muito. Eles não entenderiam.[2]
É precisamente aí que, embora seja de utilidade para veicular valores e normas de conduta pra crianças, a fábula é um pouco falha: não estamos falando do sapo ou do escorpião, em hipótese alguma. Quem acha que o sapo é um pobre coitado que pergunte às moscas.
Nisto constitui a nossa especificidade: já que não podemos falar aos animais sobre a sua chamada natureza intrínseca, nós os utilizamos (e qualquer semelhança com o real é mera coincidência) para falar a nós mesmos sobre alguma coisa chamada natureza intrínseca.
Quer dizer, o pensamento que vem é: diabos, não podemos nem utilizar a nós mesmos para dar o exemplo!? E a resposta é: não, nunca. Podemos até imaginar o outro como ele nos vê, mas bom mesmo seria nos vermos com os próprios olhos - sem precisar de espelho nenhum.
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[1]: Retirada, na íntegra, da obra "Mentes perigosas", de Ana Beatriz Barbosa Silva. É bem alarmante o fato de que este livro já integrou diversas listas de mais vendidos no país - já que é um cabedal de horrores em abordagem aos transtornos dissociais[a]. Sua autora ainda trabalhou como consultora da Globo, na novela "Caminho das Índias".
[2]: Acredite, já tentei com o gato aqui de casa; às vezes ele escuta, atentamente, mas não se incomoda.
[a]: Dá pra saber a que o livro se propõe na dedicatória: "A todas as pessoas 'de bem' que acreditam e lutam por um mundo menos violento e mais justo". Como se houvesse uma divisão nítida, embasada, fora das ficções, entre quem é totalmente "de bem" e quem só quer ver o mar pegar fogo, não para comer peixe frito, mas pela maldade mesmo.
Entrando em terreno espinhoso: se você for ver, toda classificação de uma psicopatologia se estrutura a partir de um tabu, de um ponto obscuro dentro de nossa sociedade. Em termos leigos: só é doença quando incomoda, e de uma certa forma. É por isto que, por exemplo, não há nada específico dentro das referências na área para a pessoa que tem compulsão por trabalho ou simplesmente tem o sentimento constante de uma vida vazia, oca, podre por dentro; só se diagnostica a condição psicopatológica a partir de quando estes sintomas (que muitas vezes só são tratados como tal posteriormente) atrapalham a produtividade e o relacionamento da pessoa de forma significativa - ou seja, quando é óbvio para outras pessoas.
A verdade constrangedora dessa ciência é que ela não consegue prever adequadamente se o assassino é psicopata antes de ele cometer o crime, só depois; e aí, ele sempre foi psicopata e o crime não pode ser desfeito.
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[1]: Retirada, na íntegra, da obra "Mentes perigosas", de Ana Beatriz Barbosa Silva. É bem alarmante o fato de que este livro já integrou diversas listas de mais vendidos no país - já que é um cabedal de horrores em abordagem aos transtornos dissociais[a]. Sua autora ainda trabalhou como consultora da Globo, na novela "Caminho das Índias".
[2]: Acredite, já tentei com o gato aqui de casa; às vezes ele escuta, atentamente, mas não se incomoda.
[a]: Dá pra saber a que o livro se propõe na dedicatória: "A todas as pessoas 'de bem' que acreditam e lutam por um mundo menos violento e mais justo". Como se houvesse uma divisão nítida, embasada, fora das ficções, entre quem é totalmente "de bem" e quem só quer ver o mar pegar fogo, não para comer peixe frito, mas pela maldade mesmo.
Entrando em terreno espinhoso: se você for ver, toda classificação de uma psicopatologia se estrutura a partir de um tabu, de um ponto obscuro dentro de nossa sociedade. Em termos leigos: só é doença quando incomoda, e de uma certa forma. É por isto que, por exemplo, não há nada específico dentro das referências na área para a pessoa que tem compulsão por trabalho ou simplesmente tem o sentimento constante de uma vida vazia, oca, podre por dentro; só se diagnostica a condição psicopatológica a partir de quando estes sintomas (que muitas vezes só são tratados como tal posteriormente) atrapalham a produtividade e o relacionamento da pessoa de forma significativa - ou seja, quando é óbvio para outras pessoas.
A verdade constrangedora dessa ciência é que ela não consegue prever adequadamente se o assassino é psicopata antes de ele cometer o crime, só depois; e aí, ele sempre foi psicopata e o crime não pode ser desfeito.
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