É interessante perguntar a si, durante aqueles momentos em que você se acha a pessoa mais horrorosa da face da terra: onde e quando eu fui bonita(o)?
Quase sempre a sua resposta é um instante, que (não por acidente) passou e não volta mais, já era, c'est cassé. Sempre para trás, nunca aqui, nunca deste ponto: ou você era mais jovem ou era mais magra ou era mais musculoso. Você não era nem essas coisas todas naquela época, mas hoje, quando você vê, você não sabia que era mais bonito naquela época do que você iria ser hoje, neste momento, quando você indaga. Você era mais adolescente do que é hoje, mais cheio de vida. Você era - sim, isto é bonito, agora - mais estúpido. Você era criança naquela sua resposta e hoje você não é. Ou ainda, na intermitência de você nunca ter sido uma criança bonita (e, lembre-se que toda memória é um julgamento), você era um bebê.
E, talvez, se nem aí estivesse a sua saudade, se não restasse nenhuma lembrança, nenhum tempo bom, a sensação é a de que há ao menos alguma coisa, algum desejo.