domingo, 26 de fevereiro de 2012

O terror e o vislumbre.

 ali, no fundo, onde não está.


Ontem fomos assistir A Mulher de Preto no cinema. O filme trata da adaptação de um livro de 1983: um advogado, pai, viúvo, é despachado pela sua firma a um vilarejo para cuidar dos papeis de uma antiga cliente, uma viúva, agora falecida. Não é preciso dizer que o terror (sim, o terror - o livro é de terror, o filme também) vai muito além da burocracia e do propósito do rapaz.

(Antes de tudo, uma palavra de esclarecimento: aqui, quando estou falando de filme de terror, não estou falando daqueles filmes de banho de sangue que são "encaixotados" na mesma categoria, e que, são, na verdade, manifestações bem mais rasas - os slasher movies. Terror, na minha acepção, não se limita a sangue, sustos, reflexos - embora estes filmes também tenham o que dizer sobre nós. Terror é algo muito mais demorado e perene. Pense muito mais n'O Bebê de Rosemary do que em Sexta-Feira 13, por exemplo, embora a teoria valha pra ambos.)

Pois sim, até então, tudo ia nos conformes. Havia um ar de suspense, uma hesitação. A trama ia se constituindo. O filme já estava bem nos seus 30 minutos iniciais, quando, de repente, no cinema, lotado, pôde-se entrever que havia alguma coisa fora do lugar. De início, quase que de forma imperceptível, algumas pessoas. Algumas em menor grau, outras em maior grau. Com o tempo, passando os minutos do filme, enquanto as coisas começavam a ficar fora da realidade, era possível perceber que parte do cinema estava tentando rir.

***

Uma acepção pessoal é a de que filmes de terror bons são muito mais difíceis de fazer que filmes românticos. Afinal de contas, o material dos espectadores sobre o qual ambos trabalham é muito diverso: os filmes de romance mexem sempre com alguma vontade de ser amado. O caminho clássico é o seguinte: a personagem principal conhece o seu par, se apaixona, obtém um momento íntimo de ligação, se separa, muda, melhora e volta a conquistar o seu par. Mas, de qualquer modo, nunca houve uma dúvida real. Tanto que uma das mensagens bem comuns nesse tipo de filme é: siga o seu coração

Se você for ver, no caso dos filmes de terror, acontece o oposto: os filmes de terror trabalham sempre com alguma coisa que não é deste mundo, mesmo que seja. Não é à toa que muito dos recursos utilizados para se aumentar a tensão do espectador são, por exemplo mostrar o que não está lá. Um canto de parede, uma porta, um corredor, um espelho... é quase certo que um filme de terror tenha um espelho em cena, nem que ele não reflita nada, assim como é quase pré-requisito que ele tenha uma cena em que se enquadre o rosto da personagem, de costas para um corredor escuro, desfocado e... com nada atrás, também. Afinal, que outra coisa pode assustar mais que aquilo que não está lá, nem deveria?

E por que, afinal, você iria pensar que estaria? Esse é o grande truque dos filmes de terror. 

Qual é aquela impressão comum que se tem ao ver todos os grandes antagonistas dos filmes de terror? Ora, o mal que há nos filmes de terror quase sempre é um mal que não nos pertence: um mal muito maior, mais vasto, mais amplo, imperdoável, inconcebível em sua totalidade. Um mal que não é nosso e que, portanto, não teria como nos obedecer. Que só poderia ser adiado: um mal que, apesar de nossas tentativas, no final das contas, seria um mal insolúvel. Ou você acha que você poderia negociar com a Samara? Pedir licença ao Pazuzu?

Pode notar, caro leitor, que tudo com o que nos assustamos mais nos filmes de terror tem a ver ou com monstros ou com espíritos - mas nunca com espíritos de monstros. Todas as exceções desta regra têm um rosto humano. Pazuzu é o fantasma de um monstro (e na verdade, na vida real, é um deus antigo), é verdade - mas o que assusta nele é que ele possui uma menina.

Esta é a coisa mais interessante de todos os filmes de terror, é isto que ele tem a dizer das ficções de nós mesmos e é justamente sobre esta ótica não é surpreendente que nós vamos ao cinema, assistimos os filmes, e, ainda assim, no meio da sessão, temos o ímpeto de evitá-los, virar o rosto ou rir, e tentar evitar daquilo que está à frente: a representação do mal, ainda assim uma representação, ainda assim um mal que assusta, um mal com o qual não podemos, em última instância, lidar. Caso contrário, nós teríamos alguma coisa dele em nós mesmos. Da mesma forma que alguém só é taxado de esquizofrênico se não se comportar direito, ou da mesma forma que consideramos que alguém que mate outras pessoas tem alguma coisa de inumano. Não poderíamos, não estaríamos preparados a pensar de outra forma, e é isto o principal componente do horror da coisa.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Mulherzice #2.

Ela explicou a ele duas vezes e ele ainda não entendeu. Não do jeito dele.
- Não é suficiente - ela diz. - Não basta.
- E o que que bastaria?
- Se ele soubesse o que eu quero.
O silêncio entre os dois teve a duração de um suspiro.
- Basicamente, você quer que ele demonstre o amor dele por você, não perante os outros - muito pelo contrário, se ele demonstrar para os outros o amor que ele sente por você vai causar uma calamidade mundial -, mas só e somente pra você mesma. Faz sentido?
- Um pouco.
- Aquele amor que é só seu.
- Isso.
Passaram um tempo sem dizer qualquer coisa um ao outro.
- Você quer, então, que ele prove a você que ele acha que você vale a pena. - ele concluiu.
- É.
- Mais do que qualquer outra pessoa.
- É.
- E você já não sabe que ele gosta de você?
Ela interroga ele com um olhar e ele se sente um pouco estúpido em ter peguntado.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Teste de múltipla escolha.


  mais ou menos como a vida.


1) Se você pudesse escolher, em cada par, somente uma característica, quais você escolhia? Preste bem atenção, que os resultados escolhidos vão dizer muito do que você é:
a) Verdadeiro/ Fiel
b) Intimista/ Sensitivo
c) Vaidoso/ Resiliente
d) Criativo/ Relaxado

Para responder às questões 2 e 3, utilize-se da seguinte situação:
Suponha que você seja um ser humano que morasse num lugar não muito grande, não muito pequeno, mas lotado de outros seres humanos. Para se ter uma ideia, seria possível, nesse lugar, percorrer toda a extensão, mas seria muito improvável de você ver ao menos uma vez todos os seres humanos na vida.

2) Como você iria saber que é um ser humano?

3) E se você estivesse enganado?


Para responder às questões 4 e 5, utilize-se da seguinte situação: 
Suponha que não haja final feliz que nem nos livros e filmes. Suponha, aliás, que o final, bem como diversas outras coisas, é impreciso. Que os outros seres humanos não são nem ruins nem bons.

4) Você seria ruim ou bom?

5) Como você reagiria frente a isto tudo?


* * *

6) Um homem encontra-se, anualmente, na mesma data e horário, com o espectro de si mesmo quando em plena juventude. Ele fica cada vez mais infeliz com o passar do tempo, ao ver que os conselhos que dava si mesmo, na esperança de que não cometesse os mesmos erros e passasse as mesmas dificuldades pelas quais ele passou, não surtiam efeito - embora seu espectro saísse desses encontros plenamente consciente das escolhas do futuro, ele, o do futuro, continuava a ser ele mesmo.
O homem esperava que, ao falar a si de coisas que ainda viriam na sua vida, que o ele jovem pudesse alterar o futuro homem, e que, num passe de mágica, o homem do futuro acordaria numa outra casa, com uma outra família - ou, pelo menos, na mesma casa, com os mesmos filhos barulhentos e a mesma mulher cansada, enquanto que ele seria uma pessoa completamente diferente. Isto nunca veio a acontecer.

Explique o que este homem fez de errado.