terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Elegia ao poeta sem talento.

Eu Eu Eu Eu Eu Eu Eu.
Já não caibo mais em mim.

Sinto um turbilhão de coisas, e sou tão complexo, meu Deus,
Que tenho saudades de alguma coisa que não vivi ou não ousava viver. Sei lá.
Tenho saudades de mim mesmo e outras figuras terríveis de linguagem.

Sou eu quem faço os poemas que não são para ninguém.
Se a pena e o verso são instrumentos de escultura,
Quero dar a mim - ai de mim! - o meu melhor espelho.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sobre a palmada.

se o problema não está nele, a solução também não está.

 
Por um lado, existem os pais que dizem "não, eu nunca machuquei meus filhos, uma palmadinha de vez em quando não machuca ninguém", enquanto os filhos não podem dizer nada sobre o assunto enquanto crescem. Por outro lado, se os pais não podem dar a palmada, quem é que vai dar? Como o Estado vai regular os pais, em sua maneira de regular os filhos? Até onde é possível ir? Qual é a tal da diferença entre palmadinha e castigo físico, se são dois comportamentos de bater na criança (ou aplicar correção, ou qualquer outra suavização de palavras que se preferir)? Como que se pode fazer o que a palmada fazia sem as complicações que ela causa?

Uma palmada é uma maneira rápida, quase instantânea, e eficiente de corrigir um comportamento errado. Mas ela tem uma série de características adversas:
  • não age nas causas do problema, apenas em sua manifestação final (não acaba com a vontade de "se danar", por exemplo);
  • centra no indivíduo infrator todo o problema, minimizando o ambiente (o menino que quer meter o dedo na tomada, por exemplo, pode achar que a sua curiosidade é um problema - enquanto a tomada está ali);
  • não funciona a longo prazo, o que atesta a incrível capacidade de adaptação do ser humano (que se acostuma igualmente com o que é prazeroso e o que é repulsivo);
  • distancia quem levou de quem aplicou (ou seja: não existe essa história de "reconhece por que apanhou", num nível mais profundo - a pessoa pode até saber, na sua cabeça, que errou, mas isso não tem nada a ver com dor que ela sente; dor é dor - naturalmente, quem é responsável por aplicar-lhe essa dor não vai se tornar uma companhia muito agradável);
  • acaba suprimindo outros comportamentos que não têm a ver com a história (quem apanhou por desenhar na parede pode acabar sentindo medo de desenhar no papel em branco, por exemplo). Isso leva à rigidez, estereotipação e, o que é um problema seríssimo, medo de criar soluções novas, já que
  • (essa eu deixei por último, e é a mais importante) a palmada não ensina o correto, apenas elimina o errado
Neste sentido, é interessante notar que a interdição da palmada realizada pela a própria Lei da Palmada (como está sendo reconhecida a mudança no ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente) efetua, em função, a mesma coisa que ela proíbe. A Lei veta o castigo físico em crianças e adolescentes, dado por quem quer que seja, mas não ensina a diferença entre castigo físico e educação. Ela procura homogenizar as formas de educar em casa. Nem mesmo cita a forma adequada de se criar, apenas dá as diretrizes gerais (liberdade, respeito, dignidade, direito de ir e vir, etc.) e atribui aos responsáveis a forma de garantir essas diretrizes.

Isso, por si, já seria algo significativo se a lei se cumprisse por si só: mesmo que o Estado manifeste a sua intenção de penetrar no círculo familiar mais íntimo, mais nuclear de seus componentes, a fim de lhes ajudar a criar seus sucessores, como ele iria fazer isso? Que lei pode atingir, regulamentar um ambiente que não é coletivo, mas particular?

A mudança, enfim, acaba se tornando mais um exemplo que atesta a posição do Brasil como um pais autossuficiente não em petróleo, mas em leis descontextualizadas: possui uma legislação moderníssima em algumas áreas e, no entanto, não percebe que leis não se aplicam a si mesmas caso sejam construídas apenas por propósitos, intenções muito justas e verdadeiras - que, no entanto, não dizem respeito à realidade social, a fundo. Não é na intenção da mudança do ECA que houve a discordância; a intenção é boa, é a de coibir casos e práticas abusivas que acontecem, e que são, como as piores práticas abusivas, invisíveis. O problema é que intenção e o que se dá na realidade não são, assim análogos. Os próprios pais que batem, agridem, machucam os seus filhos, além da conta (mas que conta?), que o digam: tudo aquilo que eles fazem, a que se sujeitam - pois também é ruim pra eles -, é pelo bem.

Ora, se é para o bem não se sabe, mas o que a experiência atesta que não existe uma espécie de não-palmada nesse mundo: se não quebra dum lado, quebra do outro. Onde, num mundo, existe mais de um sujeito, vai dar nisso: só temos à disposição um mundo só, e um mundo só é pouco para mais de uma pessoa que acha que ela em si é todo o mundo. Faz parte do processo de individuação de um sujeito, de seu crescimento pessoal, compreender isto - e é difícil. É ruim. Não poderia ser de outra forma: qualquer coisa que venha a nos dizer que não, que nós não somos a última Coca-Cola do deserto com gelo, limão e canudinho e que, além do mais, que o deserto está cheio, apinhado, de diferentes Cocas e refrigerantes, todos refrescantes à sua própria maneira, não seria lá muito fácil de entender. Mas não tem outro jeito.