quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Da necessidade de que assumam.

 direto do manual de maneiras erradas de mostrar que é independente


O rapaz bebe sua cerveja e resolveu falar à repórter. O resultado acaba sendo mais rico em significações que sonho de véspera.



Vem comigo: qual é mesmo o fato especial, o que dá sustentação a esse draminha virar notícia? Dou-lhe uma, dou-lhe duas...
...ah, ele assumiu. Assumiu que vai desrespeitar a lei. Não que ele dirigiu embriagado, mas que disse que iria dirigir embriagado, sem problema. Em frente das câmeras. Em frente de todo mundo. E não ficou mal por causa disso.

Não vamos seguir o mesmo caminho já seguido pela tevê. Não precisamos de redundância: o flagrante, a violação, o deboche, não vão ser o principal aqui. Todas estas coisas, francamente, servem pra mostrar não só que esse rapaz aí reconhece a lei como o seu desrespeito a ela atende a um propósito específico. Qual que seja, ele pertence somente ao rapaz, e, por mais que ele queira admitir alguma coisa na frente de todo mundo, é alguma coisa para ele [1]. Claro que isso também não exime ele de ter de saber, como todos nós, a diferença entre a calçada e o quintal.

O que nos leva de volta à questão do início: no momento da reportagem, ele não estava dirigindo, ainda, apenas manifestando intenção de dirigir. Por aí já se pode argumentar que a chamada da reportagem era exagerada, afinal ele não estava desrespeitando a lei, naquele momento (oras, dizer que vai matar já é alguma coisa, mas ainda não é matar). Mas aí também, por outro lado, a reportagem pode ter visto ele saindo e não colocaram na edição final. De todo modo, boa parte das chances é de que ele tenha mesmo saído embriagado, realmente colocando gente que não tem nada a ver potencialmente em perigo.

Aí tem o outro lado: muito provavelmente ninguém denunciou. A reportagem veio, filmou e foi embora (ou quem sabe, ficou pra tomar umas). É bem provável, também, que ele não tenha sido o único daquele recinto a beber e sair dali dirigindo. Aliás, boas chances de que ele tenha sido parte da maioria. Imagine você, se você fosse ligar pro órgão de trânsito da sua cidade, se todo mundo fosse ligar quando acontecesse coisa desse nível pra fazer uma denúncia dessas:
- Moço, tem um rapaz aqui que bebeu e vai dirigir!
- É? Pois segura ele aí que tem uns quarenta na frente dele, além de dois acidentes graves e um atropelamento ali na Curva da Viúva.

É preciso levar muita coisa em conta por detrás dessas questões, e aí que se vê que o abaixo-assinado proposto não vai dar certo, mesmo que dê: afinal, quem é que vai fiscalizar isso? E, mesmo que fiscalize, quem vai ser o fiscal que vai acabar com o ímpeto de beber, de dirigir, de correr, de confrontar, mostrar aos outros que pode, e que não dá a mínima?

Na segunda parte da reportagem ele fala que mesmo bebendo e dirigindo, não tem a intenção de matar alguém. É isso, então: intenção, assumir o erro. Parece que o foco não está no que se faz, mas no que se fala do que se faz.

É aí que fica o problema, em sua sutileza.

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[1]: é igual àquelas pessoas, às vezes, que pegam um microfone pra "mandar a real" pra uma plateia e você tem a impressão de que eles precisam falar pra uma plateia, com microfone, pra escutar o que dizem.

domingo, 6 de novembro de 2011

Os sussurros do outro lado.

A morte não é um lugar.
A morte não é um destino.
A morte é tão somente a morte.

Se os pássaros e as borboletas.
Entendem muito mais de morte que todos nós
É precisamente porque não colocam-lhe um entorno de palavras
E não lhe põem mistério.

Mesmo quando estamos a falar de morte
Estamos a falar mesmo de alguma coisa que não seja morte.
Tudo o que nós dizemos dela
Não lhe pertence, de fato.
Não há nenhuma oposição verdadeira entre a vida e a morte
Que não seja causada pela vida,
Pois a morte não fala.

Nós, somente nós, é que discordamos dela
E ainda assim a morte não nos contraria.